quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

São VAR

fonte: https://www.meutimao.com.br/noticias-do-corinthians/341592/falta-de-criterio-e-erro-duplo-em-gol-sofrido-comentarista-de-arbitragem-critica-atuacao-de-pitana

De hoje em diante serei o mais ávido defensor do VAR.
O VAR do povo. O moralizador do futebol.
É imperioso que tomemos medidas contra a caolhice de árbitros como Pitana.
Que erros grotescos ocasionados por sua miopia não mais interfiram nos resultados de partidas de futebol.
Que venha o VAR.
E que venha para ficar.
Com o VAR, ontem, a justiça seria feita. O bom zagueiro Gil não seria penalizado. Não teria sua consciência assombrada com a falta do gol derradeiro.
Irritou-se, Indignou-se.
E Gil estava certo. Era inocente. Fato comprovado por 32 câmeras que viram, filmaram tudo.
Menos o árbitro, que míope, assinalou a falta.
Maldito Pitana.
Foram muitos os ângulos. Na mais pura crueldade do replay, visto em câmera lenta, em ângulos invertidos.
E em todos.
Em todos. Gil evitou o toque.
Foram diversos Gil. E em todos, saíra ileso de culpa.
Mas a miopia de Pitana foi decisiva.
Árbitro de Copa do Mundo. Não aceita ser questionado.
Fez cara de "estou com a razão". Confrontado, ameaçou punir.
Estava convicto.
Um erro por convicção.
Um erro de Libertadores. Em mata-mata.
Com o VAR, seria alertado. Até acredito que o alertaram. Mas era tarde.
E para piorar, a encenação com um assombroso conjunto de giros e gritos.
E Gil?
Atônito foi tornando-se indignado. Com o despeito dos injustiçados.
O VAR evitaria o chute de direita que enganou Cássio.
Evitaria o barulho estridente da bola a bater no fundo da rede.
O som do desespero, de filme repetido.
O fantasma do Tolima.
Por isso digo, a solução para o futebol está no VAR. 
O VAR evitará o choro dos inocentes.  Que amigos cruéis, insensíveis à dor, em momentos como esses não bombardeiem as redes sociais com os mais monstruosos memes. Piadinhas horrorosas.
Ah se tivéssemos o VAR!
A noite de eliminação foi longa.
Uma derrota que veio como vitória.
Foram 2 a 1, e não bastou, o Corinthians caiu outra vez.
De um primeiro tempo promissor. De um Pedrinho irresponsável. De Love pedindo desculpas por gols perdidos. E outra vez uma queda diante do Guarani do Paraguai.
Nada, conforta a insônia oriunda da desolação.
Por isso defendo o VAR, o herói das multidões.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

O Belo


O futebol e seus musos. De Renato Portaluppi, Paolo Maldini a David Beckham. Criaturas de encanto invejável que percorreram os gramados internacionais despertando os desejos mais profundos do público feminino. Fico a pensar como deveria ser difícil caminhar ao lado de tais criaturas. De lidar com a invisibilidade. Para ser franco, de suportar a inveja.
Alguns, mais despeitados, apoiados por tantos outros temerosos de tais criaturas, dizem que  beleza destes atletas é hiperdimensionada pelos veículos de comunicação. São duros com suas palavras. Chegando ao ponto de colocar em dúvida suas masculinidades. Assumem o consenso de que tudo não passa de uma edição de imagem.
E como consolo, minimizam o universo feminino, afirmando que as mulheres se encantam por qualquer propagandas.
Mas nada. Nada do teçam, dará conta de tal despeito.
Tais comentários chegam a ser toleráveis nessas maldosos bocas mortais.  Pois ídolos são seres distantes. E quando belos, inatingíveis.
Se tudo é propaganda, como explicar os musos da várzea?
Nos campos não televisionados.
Campos onde a beleza é tabu.
Que ser alinhado é estar com um bom corte de cabelo e sem cheiro de álcool da noitada anterior.
Os tempos mudam.
Futebol virou lazer de família.
A beira dos campos até parece piquenique. Tem cooler, energético, protetor solar e muita gritaria.
Vai namorada, prima, amiga, irmã, todas uniformizadas com a camisa do clube.
Gritam, oram e xingam.
Muitas se aventuram em estratégias de jogo.
Mas algumas,mesmo comprometidas se deslocam aos campos mais distantes, para acompanharem seus musos.
Uma verdadeira devoção.
Recentemente tenho presenciado um fenômeno, que despertou o interesse de tal público, a ponto de levar até mães de atleta à fidelidade das beiras de gramados.
Um legião o acompanha, de entendidas de futebol, a torcedoras de família.
Os bares ao lado dos clubes esvaziam-se com sua presença.
Esse fenômeno tem nome e desfila pelos gramados londrinenses. Atende educadamente a todos por Val.
Lindo Val.
Sua presença gera desavenças em casais.
Basta uma olhadinha, para o namorado enciumado e inseguro, ter suas crises.
Explodir em desaforos contra a pobre iludida.
Outras simplesmente fogem se deslocam para o campo onde seu muso está.
Assumem o risco, quase que instintivamente.
Foi o que aconteceu em uma partida recente. Uma jovem simplesmente virou a casaca. Abandou os amigos que acompanhava e ficou. Sentou-se de forma solitária em um banco atrás do gol adversário, encantada, sofreu. Como sofreu.
Percebia-se sua aflição ao longo da partida.
Desesperava-se com a violência praticada contra seu muso.
E como os marcadores são cruéis.
Batiam com gosto.
Uma verdadeira sessão de descarrego.
Uma crueldade sem tamanho, com o pobre coração aflito que parecia não aceitar o que acontecia.
Incomodada, roía as unhas, gesticulava. E a cada encontrão, era uma sofreguidão indescritível.
A cada ai.
Um ui.
Um palavrão abafado pela consciência comprometida.
Olhava o relógio.
Murmurava o nome que acabara de Aprender.
Vai Val.
Vai Val.
Parecia pedir um gol ao destemido camisa sete, coincidentemente o número imortalizado por Renato Portaluppi.
Seus olhos o acompanhava por todo o campo.
Pareciam querer protege-lo.
Foram longos cinquenta minutos de sofrimento. Perceptíveis em seu cruzar de pernas. No olhar fixo para o campo. E acima de tudo, pela expressão de angústia.
Definitivamente, o que era para ser um "vou ali, e já volto", virou torcida. Esqueceu de vez o time que acompanhara.
Era a mais pura expressão de devoção.
A devoção a Lindo Val.
Suas mãos pareciam sempre estar em oração.
A fazer um pedido.
Suas preces foram atendidas, no final do jogo. Com o gol que selaria a partida. Um gol de classe e frieza.
Na entrada da área.
Diante de um marcador vencido.
Como poucos musos, foi generoso, ouvíamos orientaro lateral que nervoso e indeciso, evitou o arremate frontal.
Dizia firmemente
- Faça o gol. Chute.
Não chutou.
Passou.
Passou forte.
Quase sem ângulo.
Bola rápida.
Domínio preciso.
Lindo. Preciso.
Lindo.
A jovem mal piscava. Levou a mão à boca.
Lindo.
Creio que naquele. Justamente naquele momento. Sequer respirou.
Lindo.
Parecia querer parar a projeção do goleiro contra seu muso.
Seria inevitável o impacto. Era um goleiro maçudo.
Mas não, para ele aquilo era poesia.
Olhou fixamente para o goleiro que em desespero já deslizava pelo chão.
Fitou-o.
Parecia querer ver dentro de seus olhos.
Bateu seco e saltou.
Não de qualquer jeito.
Ela se levantou do banco.
A bola entrou.
Ela saltou.
No canto superior.
Ela gritou.
E juntamente com o barulho da bola deslizando pela rede, ouvia-se ao fundo.
Lindo.
Lindo.
Lindo.
Lindo.
Uma alma estava agraciada.
Abriu em seu belo rosto um sorriso.
Sorriso que contrastava com o olhar cabisbaixo do goleiro que sequer levantou do chão.








domingo, 2 de fevereiro de 2020

Jarrão



O futebol de várzea tem seus mistérios e histórias, é recheado de personagens das mais diversas alcunhas. Penso, que na várzea ser chamado pelo nome beira o desrespeito.
São muitos os apelidos que desfilam pelos campos, uma listagem digna de uma taxonomia específica. Boizinho, Peruca, Barriga, Queixada, Vermelho, Bagaça, Sossego, Tiziu, Tyson, Delega, Balão, Buiú, Toddy, Soninho, Miséria, Tonho Preto, e assim se estende a lista por gerações de atletas.
Muitos apelidos acompanham-nos desde a infância. Uma forma de "categorização" do indivíduo, é quase um segundo batismo. Outras são atribuídas tardiamente, e muitas nascem dentro dos campos de futebol ao ponto de nunca saber o nome verdadeiro de alguns jogadores.
Nesse universo de alcunhas, há alguns anos, uma vem tirando o sono de muitos marcadores da cidade, a figura atende por Jarrão.
O nome?
Sabe lá Deus qual. 
Mas falou Jarrão em qualquer região da cidade. Dão até o número de sua chuteira.
Dia de marca-lo, é jogo sem elegância, marcador precavido joga na base da trombada e do chutão. Sem conversa. Qualquer jogador bem informado sabe disso.
É jogo no IAPAR? 
Tem que reforçar a marcação.
E não tem sossego.
Sozinho segura no mínimo dois marcadores.
E o pior, não falta. Sequer dá uma trégua com uma lesão ou outra.
O indivíduo parece que mora no campo.
Quando atrasa, dá para escutar o murmurinho.
O semblante do pessoal fica tenso.

- E ai, ele vem ou não?

Com seus quase dois metros de altura e alguns quilinhos a mais, é um antagonista no sentido pleno da palavra naquilo que se compreende como fisionomia futebolística.
E ai que mora o perigo para os desinformados.
É meio time, e todos sabem disso.
Todos. Companheiros do Amigos do Iapar e os adversários. 
Os que não sabem, ao término das partidas ficam sabendo.
Deu espaço, é gol.
É o rei da área em Londrina.
Sujeito de pouca conversa no campo, caminha sempre de cara fechada. Faz o tipo intimidador. Grande e corpulento, é dono de uma canhota incrível. Conhecedor de seu status, parece entrar em uma bolha quando está no gramado.
Falou Jarrão. Todos já sabemos, lá vem cotovelada, pisão no pé, tapas no peito e muita habilidade com pivôs quase imarcáveis.
Seu jogo, todos conhecem, trava a bola em sua canhota, segura na parede e prepara o pivô.
É um perigo. Quanto mais perto da área, mais letal.
Gosta de jogar de costas.
Poucos gostam tanto.
Em jogo com personagem tão folclórico, todos viramos coadjuvante.Tem-que se criar uma coregrafia para anula-lo, o na pior das hipóteses, diminuir o estrago. 
Chegará um dia que lhe prestarão a devida homenagem, batizarão o campo com o seu nome.
Talvez, até uma placa com o total de gols marcados.


referente a junho de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2020

O gato


Mesários são criaturas indiferentes à partida. São verdadeiros delegados, estão lá para que as regras do campeonatos sejam cumpridas e pronto. Assistem tudo de um ponto privilegiado do campo.
Chegam cedo, antes mesmo da arbitragem.
Gostam do relógio.O conferem o tempo todo. E quando essa aponta que está na hora de começar o seu trabalho, são pontuais. Montam suas mesas e, como que mecanicamente iniciam o ritual da documentação.
Geralmente, um membro da equipe leva os documentos e as carteirinhas com foto para o figura, já com a ficha da partida assinada. Mas em campeonato de juvenil não. Tem que fazer fila. dizem que é para ensinar a boa disciplina para os atletas.
E foi numa destas filas que um bicho estranho apareceu para um desses senhores.
Campeonato Carioca juvenil de 1998, jogo entre América e Friburguense. A partida ocorreria no Estádio Giulite Coutinho, casa do América.
Molecada entre quinze e dezessete anos. Ansiosos. A ponto de alguns subirem para a documentação ainda descalços.
Havia montado sua mesa debaixo de um guarda-sol, cordialmente cedido pela equipe mandante. situara-a entre os bancos de reservas. 
Observara tudo. Até mesmo os pontos de arremesso de urina e cuspe.
O guarda-sol era tão fino, que poderíamos chamá-lo de corta-cuspe.
Estava bem protegido. Ao menos das intenções dos poucos torcedores.
Organizou a fila e sentou-se.
Colocou seus óculos, abriu sua pasta e retirou a ficha de inscrição da partida. 
Como de costume, recebia os documentos e carteirinhas sem sequer olhar o atleta. Conferia-os e chamava o próximo da fila.
A cena se repetia já haviam passado quase vinte jogadores por sua mesa.
Olhava a foto.
A assinatura.
Conferia os documentos.
Olhava a ficha.
- Próximo...
Detestava fotocópias, chamava de fraude. Sempre quando uma aparecia, criava caso. Mas desta vez tudo corria tranquilamente. As equipes já sabiam de sua presença no campo.
Continuou seu trabalho de conferência.
Dos garotos lembrava apenas das vozes.
Sons agudos, com alguma tentativa de empostação, geralmente sempre terminando em fracasso.
Quando que por piedade, ou tédio, dava por olhar a fila por sobre seus óculos. Via um interminável alinhamento de moleques franzinos, pálidos e com seus documentas nas mãos.
Só que dessa vez, nem isso. Ignorou-os por completo.
Eram duas da tarde. O sol não estava para brincadeira.
Continuou a olhar os papeis, e fixou-se nisso.
De repente, entre um documento e outro. Um trago de água e um confronto de assinaturas. O sol que o castigava, some de sua mesa. em seu lugar, uma sombra que parecia não ter fim.
Ergueu vagarosamente os olhos por sobre o o óculos, como de costume, e o que via era apenas uma massa negra e volumosa. Assustado, continuou a observa-lo por alguns segundos.
A figura era assustadora. Uma montanha negra. Massuda e de olhar severo que lhe abriu um sorriso amistoso com dentes brancos e enormes que encavalavam em sua boca. Percebia os pelos que lhe tomavam a face. Os olhos fundos e a voz assustadoramente grave que em nada lembrava o conjunto de garotos que passaram por ali. Perfilado com garotos da categoria, destoava, avolumava-se sobre o grupo. Sua sombra parecia engolir ao menos três jovens atletas.
Estendeu-lhe a mão com os documentos. E sorriu.
Incrédulo com o que via, secamente lhe perguntou: - Idade?
- Dezesseis professor. Igual o que está no documento.
Devolveu-lhe os documentos e continuou sua conferência.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O centroavante do amor e sua Julieta

Fotografia  de André Camargo Lopes, 2018.

- Vai morrer rapaz. Você ouviu? Se fizer isso de novo, daqui você não sai vivo.

Os casais se unem pelos mais estranhos motivos. E são essas estranhezas o que movimentam suas paixões. Alguns casais se tornam fortes justamente por amar-se e amarem a mesma coisa juntos. 
Quando avistávamos o Fiat Spazio creme, ano 1983 nas imediações do campo, tínhamos a certeza de que o jogo seria tenso. Teríamos um espetáculo de paixões no nível Shakespeariano.  Daquelas de amor intenso. De dois contra o mundo, coisas assim.
O dono do veículo era Jairzão, centroavante que acabara de chegar no Heimtal para a temporada 2000, trazendo a fama de matador, vindo do A. C. Paraíso. Era um indivíduo alto e forte, bom sujeito. Jogador tipo família. Não se envolvia em brigas. Sequer em bate-bocas. ao contrário de muitos, ia para o campo com a esposa, irmãos e filho. Levavam toalha para piquenique, bebida, lanche, protetor solar, e outros apetrechos preparados na véspera por sua esposa e cunhadas. 
Chegavam cedo, a tempo de assistirem a partida de aspirantes. Acampavam à sombra de uma árvore, e lá ficavam. Um verdadeiro passeio dominical.
Visualmente era um casal exótico, ele com seus quase dois metros de altura, e ela com pouco mais de um metro e meio. E não parava nisso.
Acostumados com gols marcados, comemorados com palavrões, socos no ar, e toda forma de expressão vil, que ebuliam no êxtase de uma partida de futebol. Passamos a ter um novo tipo de comemoração.
Pois com Jairzão era diferente. Era o atacante do amor.
Antes mesmo de surgir um Wagner Love, a várzea londrinense teve o seu atacante Love.
Independente do campo que jogávamos.
Era ele por a bola na rede e a cena se repetia.
A montanha de músculos se deslocava para uma das laterais do campo. Procurava atento sua esposa, não ousávamos interrompe-lo, aguardávamos no campo, limitando-nos a observar a cena.
Eram longos segundos de busca incessante.
Volta e meia, ela surgiu gritando juras de amor e saltitando de alegria. As vezes, de tão empolgada pulava com o filho nos braços. E a criança, assustada, chorava.
Eram beijos rápidos no alambrado.
Beijos suados.
Nela e no filho. Tapinhas nos irmãos.
Tudo em família.
Era um bom sujeito.
Eram declarações das mais apaixonadas.  Bastava sair o gol, e tudo se repetia.
Juiz olhando o relógio.
Adversário mal-amado cobrando cartão.
Saltos no alambrado.
E o beijo. Ah! O beijo dos apaixonados.
O tempo parava, o mundo que espere, parecia ser isso a mensagem que nos mandava.
E esperávamos.
Mas vida de centroavante, não é esse mar de rosas. Tem seus prós e contras. Em dia que a bola não entrava e a torcida da casa dava de lhe pegar no pé deixando-o cabisbaixo.
Não demorava muito e lá do campo a escutávamos brigando com os torcedores mais exaltados.

- Se acha que é fácil, vai lá e faz você.
- Cadê o respeito? Semana passada não era isso que você pensava dele. Quero ver o que vai fazer se ele fizer um gol.

Dito e feito. Aquilo parecia lhe dar ânimo. Alguém que o defendesse.
Como uma criança se sentindo segura, em segundos transfigurava, ia de cabisbaixo a sorridente.
Olhava para a torcida e ria.
Jairzão ao ver  cena ria, apenas ria.
Ria do trabalho de seus irmãos em acalmar sua fiel torcedora.
Ria como que se sentindo vingado das afrontas.
E continuava a rir, até que em uma de suas persistências encontrasse o gol.
E como resposta aos descreditados, corria até sua defensora para lhe render as homenagens devidas.
Era o casal perfeito. O matrimônio parecia ter sido lavrado em um campo de futebol. Sinceramente, nunca lhe perguntei isso. Mas suspeitava que sim.
Era um amor que se misturava como a fidelidade de um torcedor.
Ela cobrava de tudo e de todos.
Quando o jogo era pegada, gritava para nossa defesa

- E ai, ficarão de conversa ou vão a descer a lenha como se deve? Estão batendo no meu marido, ainda não perceberam?

As cobranças conosco só paravam quando efetivamente começávamos a "impor o respeito".
Agora com os adversários, isso parecia não ter fim.
A cada cotovelada. Puxão de camisa. Subia o alambrado como um a fera. Vermelha, tomada em cólera e gritava com uma fúria incontrolável.

- Se bater de novo em meu marido você não volta para casa ouviu?

Não eram somente essas ameaças, mas... Estava convicta de suas palavras. As vezes parecia querer arremessar algo no atleta adversário. Sempre contida por um dos heroicos cunhados que acenava para o irmão e a possível vítima.
Andava de um lado para o outro. Raramente sentava.
Mas, tudo mudava quando ouvia o barulho da rede.
Tudo mudava quando percebia que em meio aquele monte de marmanjos, uma figura familiar, rasgava o campo em sua direção. Com os braços abertos e o olhar apaixonado a procurando.
Transfigurava. Ficava amável outra vez.
Derretia-se em meio as declarações apaixonadas sob o olhar dos demais.
Naquele momento tudo se acalmava.


domingo, 12 de janeiro de 2020

Menino abusado

Jogo da copa Cambélon 2017, campo do Maria Lúcia.
Fotografia: André Camargo Lopes

- Vou começar jogando?
Não entendemos a pergunta e continuamos o aquecimento.
Mas o indivíduo era persistente, e tornou a perguntar.
- Vou começar Jogando?
Era uma pegunta estranha para início de temporada.
Acabara de entrar no elenco.
Inserido no grupo de Whatsapp do time, brincou, resenhou e até deu palpite. Parecia que realmente estava acreditando naquilo que ali ocorria. Levou a sério. Tem jogador que acredita em resenha de Whatsapp.
Falaram que está voando, e acreditou. E pior, foi para ousadia, queria derrubar o titular de carreira atropelando a fila dos reservas. Não entendia o jogo da resenha. No grupo, fala-se o que quer. Lava-se roupa suja, provoca o companheiro para ver o que aguenta.
Mas ele não.
Acreditou e foi para cima da diretoria.
Queria saber se iniciaria a temporada como titular.
Em seu segundo jogo.
Os donos da posição ficaram ofendidos.
E digo, titular ofendido não sai de campo.
Fica.
Nem que for por pirraça. Mancando, saltitando.
Mas fica. E a cada tapa, dá uma olhadinha para o lado, só para provocar.
Mas, o indivíduo não tinha limites, era ousado.
Com ele não tinha conversa.
Já estava no campo.
Colocou o uniforme o correu para o aquecimento.
Bateu bola com o pessoal, já se considerava o titular da posição.
Aqueceu.
Chutou a gol. Alongou. Deu saltinho e arrancou. Estava pronto para a partida.
Se posicionou na sua e lá ficou. Esperando a organização final da equipe.
Quando viu que estava sobrando. Começou a suar. Olhava para um lado e para o outro, inadvertidamente. Ansioso, não aguentou.
Perguntou outra vez: "E ai, vou para o jogo ou espero?"
É como se não estivesse satisfeito com a ausência da resposta.
Não precisava nem falar.
Os titulares já estavam em campo.
Apenas olhamos.
E sem resposta sentou.
Sentou e não gostou.
Fez até gol.
Mas a várzea não é o Cartola.
Jogou.
Não convenceu, e sentou.

sábado, 5 de outubro de 2019

Vingadores

Bruno, um dos melhores atletas da 5°Copa Piottão de FUT3.


Foi o jogo perfeito.
Era o que todos diziam após a partida.
Não teve espaço.
Tudo foi decidido milimetricamente.
Foram semanas de estudos.
Nunca os vi tão aplicados.
Debatiam em todos os espaços. Havia virado rotina.
Tempo vago.
Lá estavam os 3. Reunidos.
Debatendo a melhor tática.
Obcecados com o jogo, chegavam a ser cansativos.
Todos os dias. Sem tirar nem pôr. Diziam a mesma coisa:
- Temos que marcar. A gente marca os caras e joga por um gol. Apenas um golzinho.
Diziam os mais concentrados, receosos com possíveis contra-ataque.
Buscavam referências.
- Tem time que joga assim, meu pai falou que  a Inglaterra era assim.
- Isso. Vamos jogar como o Corinthians.
Diziam.
Foram dias a fio.
Reuniam-se em todos os espaços. Todos mesmo.
Eram intermináveis as conversas de banheiro.
Quem disse que futebol não educa.
Aplicavam conceitos e jargões novos para o seu repertório futebolístico.
Escutávamos pelos corredores as muitas estratégias do grupo.
- Tem que fechar no facão. Um fecha outro dobra.
- Chuta na mureta. Vamos explorar o rebote.
- Eu puxo. Vocês chutam em mim. Chuta que garanto.
Por dias foram tomados de um boleires invejável:
- Quem corre no campo é a bola. Se correr atrás, está errado.
- Dá o tapa é acelera no pai.
- Jogador bom não pede licença.  Passa por cima.
Foram longos os dias que antecederam a semifinal, não pensavam e nem falavam de outra coisa.
Afinal, era jogo de semifinal. Não poderiam bobear.
Estavam a um  degrau da grande final. Não tinham lutado até ali por nada.
Na véspera do jogo, como verdadeiros estrategistas, ainda estavam lá. Reunidos.
Definiam e redefiniam o plano de jogo.
Não poderia haver espaço.
Não poderia haver espaço mesmo.
Entre uma brincadeira ou outra, admitiam a superioridade técnica do adversário. E contavam com isso. Sabiam que isso poderia ser um ponto a favor. Pois time bom relaxa, não estuda o adversário.
Estavam invictos. Tinham o artilheiro do campeonato. Tudo conspirava contra.
Mas, havia um plano.
- Vamos jogar no erro.
E jogaram.
E não tardou muito para dar certo. Forçaram o erro e ele veio. Não do pé de qualquer um, mas do craque do campeonato, que tomado de uma soberba sobre-humana, resolveu sair driblando por dentro da área.
Batata.
Bobeou.
Bastou um totozinho na bola. E lá estavam todos.
Comemorando.
Sentindo-se mais próximos da finalíssima.
Vieram outros dois gols.
Um banho de água fria nas esperanças adversária.
Nem o gol de honra no apagar das luzes silenciou o alarido da vitória.
Estava selado o destino.
Já eram finalista.
Se preparam para isso.
Como se preparam.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Bolinho




Uma partida que não terminará, anuncia-se no começo. 
Começa tensa, soltando faísca. 
A cada encontrão, um mergulho, um joelho dobrado, um salto e um ai.
Tem jogadores que se aventuram na cena. Giram para todos os lados. Caem e levantam os braços já olhando desesperadamente para o árbitro.
Quando começa assim, não tem jeito.
é um show de saltos e gritos.
Para toda dividida uma queda. A cada queda, um murmurinho. Um empurra-empurra. Os mais exaltados entram na onda do não me toque que estou bravo. Está feito! 
Inevitável, formou-se o bolinho.
Chegam em bandos. Dois, três, quatro e assim vai.
A primeira vítima é sempre o árbitro. 
Uns apelam para o encontrão.
Cara feia. Olho no olho. Chega ser quase uma dança.
Outros despejam a saliva esbravejante na narina do pobre assoprador. 
Falam cuspindo. Em algumas situações, percebe-se a cana atravessando o ar. Um cheiro de fígado sobrecarregado na véspera da partida.
Montou o bolinho. Aguenta. O jogo fica chato. 
É torcedor reclamando de tudo fora do campo. Alguns até correm por toda a lateral do campo. Marcação cerrada no árbitro. Garante na insistência que tudo ocorrerá conforme suas regras. 
No campo tem jogador que reclama até de falta a favor. Imagina as faltas contra e as não marcadas?
O assoprador sofre.
É o tempo todo.
Deu.
Reclamam.
Não deu.
Bolinho.
Há diversos tipos de bolinho.
Há aqueles que querem intimidar. Sempre tocado pelos valentões de plantão.
Colam no adversário. Falam alto. Muitos até gritam.
Alguns parecem concorrer com a intensidade de suas lamúrias.
São verdadeiras lavadeiras do gramado.
Juntam a esses torcedores mal-intencionados e insatisfeitos. Geralmente esses bolinhos se desmancham com a turma do deixa disso, ou nos limpa-trilhos. Quando isso acontece sobra braço para todo mundo.
Existem aqueles bolinhos chatos, o da turma de sempre. Toda partida de futebol existe o grupo dos chorões, esses são figuras inevitáveis no futebol. Vitimizam-se. São os perseguidos em campo.
Tem os bolinhos dos argumentos furados. Tudo é queixa. Mostram a hipotética lesão para a torcida, para o árbitro, para o adversário, tiram foto e postam no Instagram.
Mas, no futebol de várzea, o bolinho clássico é no árbitro mesmo. O assoprador, é a vítima preferida dos chorões de plantão. Esse, sempre sozinho. Conta com a sorte e com a boa intenção de alguns menos exaltados.
Bolinheiros destetam cartão.
Quando recebem. Ficam inconformados.
Xingam, vão pra cima. Alguns até choram.
Tumultuam o espaço.
Gostam de ser o centro da atenção.
De terem razão.
Quando isso não acontece. Abaixam a cabeça e saem do campo sem olhar para trás. Ameaçam abandonar o clube. Pois se dizem traídos. Sempre na esperança que alguém lá de fora lhe dê razão.
Mas não tem jeito na outra partida estão lá tal como os pé de galinha que crescem nos gramados.

domingo, 19 de maio de 2019

Sem heresias, por favor.



Tenho minhas convicções.
E uma delas é não rezar antes ou durante as partidas de futebol.
Faço figa roo as unhas. Mas rezar.
Isso não faço não.
Não faço mesmo.
Seria uma heresia.
Muitos me questionaram sobre esse posicionamento, mas tenho por hábito manter minhas convicções.
Todo jogo, minutos antes de entrarmos em campo, faça chuva ou faça sol. Sempre tem o puxador de oração do elenco que reúne o grupo no centro do gramado para a tradicional oração da partida.Tem jogador que não briga por uma úncia bola em campo, mas se não tiver oração, se recusa a entrar em campo.
É a mais pura manifestação de fé. Dos dois lados, é claro.
Alguns atletas realmente acreditam que ganharão o jogo rezando mais alto que o adversário. Alguns chegam a entrar em transe.
A fé do atleta é medida por sua posição.
Quanto mais exposta a posição do indivíduo no campo, mais fervorosa suas preces.
Acredito que alguns rezam para batermos menos lá trás.
Atacante e meia até parecem que estão em cultos.
Com os pulmões cheios. Fecham os olhos e clamam.
Alguns lembram ao Bondoso Deus que na segunda-feira é dia de labuta.
A fé também é medida por fases do clube.
Quando a fase está ruim, tem rosário no meio da roda, jogador de olhos vibrando e até improviso nos versos da prece.
Mas quando a fase está boa, aí vem a trairagem. Nosso Senhor sequer é lembrado.
Não é fácil ser coerente. Fazem de tudo para lhe desacreditar em suas convicções.
Já participei de reuniões em que se debateu se deveríamos rezar antes e depois do jogo. E sempre tem o oportunista que questiona se podemos inserir mais uma oração para fechar a corrente.
O fato é que não sou herético.
O Felipe Melo sim.
Eu não.
Não rezo mesmo.
Isso é caso decidido.
Não rezo e todo atacante sabe o porque.
Nas orações, tenho por hábito contar o número de adversários enquanto oram.







sábado, 20 de abril de 2019

Hoje eu "se" consagro



O que passa na cabeça de um jogador nos metros finais de uma arrancada perfeita?
Zagueiro ao chão.
O volante já esbaforido, como que aceitando o desfecho da jogada.
São poucos passos que faltam.
Uma arrancada perfeita.
Da intermediária.
Talvez, a cada passo, o som dos gritos apaixonados da torcida.
Os abraços fraternais de seus companheiros de equipe.
O som da rede.
A sua frente apenas o goleiro. Os olhos em desespero, dilatam-se para a bola. Indeciso sobre a direção do chute ainda não armado. Corpo tenso. Arqueado. Mãos trêmulas e espalmadas.
Uma arrancada perfeita.
Os passos de sua corrida eram ensurdecedoramente escutados por todos.
Por alguns segundos deixamos de respirar.
Era a certeza do gol.
Posicionamento frontal. Na marca do pênalti.
Inevitável. Foi uma arrancada perfeita.
Muitos dirão que driblou meio time antes do arremate fatal.
Outros que se desvencilhou dos melhores marcadores.
As histórias se confundirão com as paixões.
Qual será a sua história desta arrancada?
Mas, o que passa na cabeça de um jogador neste metros finais, no momento do chute?
Não de um chute qualquer. Um chute digno de sua arrancada.
A bola fora roubada na intermediária. Uma corrida em diagonal.
Inesperadamente perfeita, em um jogo tenso e de marcação pesada.
Braços e pernas pareciam foices que arranham o ar e a grama.
Seu corpo durante vinte. Trinta metros. Ou quase isso. Esgueirou-se. Ora em força. Ora na mais pura habilidade.
Arrancou com a força de sua juventude.
Correu. Como correu!
Mas entre o ímpeto do jovem atleta e o gol, havia uma chuteira velha. Gasta por partidas repetidamente disputadas.
Em seu momento derradeiro. Ao alavancar o corpo para chute, eis que o destino lhe traí.
Ou melhor. Suas chuteiras.
Do gol como vista final, em menos de um segundo, os céus.
Literalmente os céus.
Foi um tombo. Limito-me a isso.
Um tombo
Mas, o que passa na cabeça de um jogador no momento do chute que não deu?
O som do pé contra a bola?
O som do salto do goleiro?
A bola que se esfrega na rede?
Nada disso lhe consolou.
Foi uma arrancada perfeita.
Sobrou-lhe apenas a grama.







segunda-feira, 11 de março de 2019

A lei da reciprocidade

fonte: https://www.ludopedio.com.br/futebol-arte/carrinho-8/
fotógrafo: Jorge Zubillaga 

Se há um lugar onde a Lei da reciprocidade é aplicada, esse lugar é a várzea.
Não há pontapé sem revide.
Todo tapa tem um complemento. Tudo funciona dentro da ética futebolística.
É consenso nos campos: bateu... Aguenta apanhar.
Na várzea, quando se começa uma partida batendo, é importante ter opinião e sustentar a posição até o final. Mesmo que esse seja antecipado. 
Mas tem que se ter opinião.
Bateu no primeiro, já dá no segundo para impor o respeito.
O problema deste tipo de jogo é o efeito dominó que causa.
É comum em jogos disputados em seu ápice de virilidade algum atacante que se sinta maltratado pelas travas do marcador gritar para seu zagueiro de confiança:
- Oh fulano, bate ai que aqui os caras estão descendo a lenha.
Geralmente solicitam os serviços aos tipos mais simpáticos que carregam alcunhas cravadas a unha.
Tonhão. Baiano. Bagaça. Didão, Trinca Osso, Banguela... Uma infinidade de aumentativos e superlativos que comprovam e valorizam os tipos físicos e suas respectivas disposições para o ofício.
Esses já assustam alguns na sombra que projetam no campo.
Mas têm os "migué". Os tipo franzino que mal aguentam um tapa, mas narram a partida. 
Começou a confusão, são os primeiros a fazerem a fumaça.
Jogam o tempo todo na cabeça do adversário:
- E ai parceiro, poderia ter deixado o pé.
-Leu o número da chuteira?
- Levanta que só começamos.
-Passou a mão na boca porque? Nem saiu sangue.
É o tal "jogo no psicológico". Só para ver se treme.
E tem jogador que fica igual a bambu. Alguns do nada saem do jogo.
Têm até crise de pânico.
Dizem que zagueiro e volante não têm juízo. Batem para ver o tombo. Sempre considerei essa colocação uma injustiça com o ofício.
E foi numa destas que presenciei algo improvável.
Depois de um atropelo no meio de campo. Daqueles de formar bolinho. 
Posicionava-me na marcação dentro da área, quando ouvi uma voz fraca e trêmula me chamar.
Um som abafado, meio encabulado.
O sujeito estava pálido, compunha a base da barreira.
Chamou-me uma ou duas vezes. Não lembro.
O que lembro foram suas palavras. Quase uma súplica em desespero:
- PENSA EM NÓS... EM NÓS.
Parecia prever o que estava por vir.
Apanhou uma.
Duas.
Três.
Era incansável o botinudo que lhe descia o sarrafo.
Minutos depois, lá estava ele, sentado à beira do campo com o tornozelo inchado e continuava a queixar-se:
- POXA, QUANDO FOR BATER, PENSA EM NÓS...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A regra 12 e a ética rodriguiana

fonte:
http://redeglobo.globo.com/globoteatro/bis/noticia/2013/09/nelson-rodrigues-fas-famosos-falam-de-sua-admiracao-pelo-autor.html


Sempre tive comigo que a falta faz parte do jogo, é ação do esperto, do sábio futebolístico, que entende e respeita a destreza do adversário. RESPEITA e ENTENDE, não disse que ACEITA.
Os aforismos povoam o fino das narrativas futebolística. E o meu, era dotado de uma honestidade dos grandes homens. A mais pura ética de zagueiros educados com entrevistas de Wilson Gottardo e leitura de Albert Camus.
Hiperbólica por natureza, as vozes que alimentam esse imaginário se fazem valer dos exemplos mais esdrúxulos ou improváveis. 
Essa semana, peguei-me lembrando do grande Nelson Rodrigues.
Não sem motivo.
Em meio ao Fla-Flu das organizadas dos presidenciáveis, deparei-me com suas palavras soltas em um artigo. Sem contexto. Citada, de forma cruel. Com página e data, e basta.
Suas palavras estavam soltas, mas não sem sentido. 
Li. Ruminei, palavra a palavra. 
Cada vogal. 
Cada consoante. 
Ponto a ponto. 
Tentei me desvincilhar do texto. Sequer lembro do autor. Ou do que se tratava o material, mas as palavras rodriguianas.
Ah! Essas palavras. Essas as gravei, como uma cicatriz.
Ecoavam-me. Convidavam-me a rumina-las.

"Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos".

Sobre o autor?
Jornalista e torcedor fanático do Fluminense.
Esse era Nelson Rodrigues.
Justo o Fluminense!
O time que nos deve a série C. 
Nos deve pela moralidade do futebol. 
O time dos tapetões.
Nunca tão poucas palavras foram tão verdadeiras.
Ruminavam-me. Não mais as ruminava. Ruminavam-me.
- "É a falta de caráter que decide uma partida".
A falta de caráter.
La mano de Dios.
O tapinha de Thierry Henry.
Os giros. 
Os ais. 
E tudo quanto é espertezas surrupiosas.
Realmente, Nelson Rodrigues estava coberto em suas razões. São três momentos da ética cujos bons sentimentos não se aplicam.
Há meses, vivemos um Fla-Flu que ambas as torcidas jogam uma partida de mentiras.
E o irônico!
As pessoas querem. Clamam por serem enganadas.
Elegeremos o primeiro presidente de campanha em Whatsapp, Instagram e Facebook.
Vivemos em rede. Perdemos o contato físico. 
O cara a cara.
Campanhas fantasmas, sem debates.
Sem debates!
Um facínora que se fez por um kit gay.
Talvez, fantasia e sonho de consumo de muito pai de família.
Daria um conto.
Assim como na literatura, a política passou a se alimentar de veredas midiáticas.
O futebol iniciou essas discussões ao trazer para os gramados os craques de vídeo tape.
É demais para o meu Brizolismo, Lulismo, Curintianismo, varzismo. 
É demais para qualquer ismo destes tantos anos de vida.
Mas de todos, o que mais sofre, é o saudosismo. 
Acabou o palanque.
O bate-boca.
Sem direito a uma nova Democracia "curintiana".
Sem Dotô e Casão.
Bêbados e conscientes.
Nunca Nelson Rodrigues, o homem que não errava, esteve tão certo.
Secou. 
Não há mais malandro no campo.
Sequer na várzea.
Não temos embates.
Tudo. Infinitamente tudo se decide pela regra.
Ou melhor, em suas brechas.
Estamos na era do VAR.
Sem banguelas de radinho na arquibancada.
Como o Flamengo deixa de ser grande com isso.
Hoje é no grito.
Lá do alto. 
Das numeradas e cativas.
É tudo no pode ou não pode.
E as más intenções se alimentam disso.
Da regra 12.
De subterfúgio virou  um tumor.
Um buraco negro de replays e fones.
Efetivamente, apresentaram-nos a regra 12.
Vale tudo.
Do ponta-pé à voadora.
Está na moda o fake.
Palavra gringa para classificar o mentiroso.
Mas pior que o mentiroso é o cidadão que se pretende.
Se pretende enganar.
Mas pode.
Na regra 12, acreditamos no que queremos.
Míopes como árbitros condescendentes.
A regra 12 nos permite a passionalidade. Sermos seletivos em sua aplicação.
Como dizem os entusiastas: 
"- Podemos tirar quem quisermos".
Está na regra!
É interpretável e pronto. 
E a interpretação que vale?
A minha. É óbvio.






domingo, 7 de outubro de 2018

Moldado a facão

O grande Gilmar Fubá na Várzea, na Copa Kaiser, 2012.
fonte: https://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/copa-kaiser/ultimas-noticias/2012/03/27/futebol-de-varzea-discute-ate-teto-salarial-apos-times-gastarem-mais-de-r-100-mil-por-ano.htm


As lembranças parecem ser a força deste gênero literário tão prosaico que é a crônica. Lembrar, talvez seja a única forma de nos mantermos ativos.
Pois, o lembrar nos permite a saudade. E isso, por si só, já basta.
Hoje, em campo, a pilha era tanta, que lembrei do finado João Carlos.
Para ele, jogo pilhado era festa. Gostava de irritar a torcida adversária. volta e meia dava um atropelo nos canela cinza da beira de campo.
Juiz com ele?
Esse não tinha vez.
Eram vários: "pega leve João". Fora e dentro do campo.
Mas não tinha jeito. quando o homem cismava, acabou. Ia dar confusão.
Era um mestra na malandragem em campo.
Sabia jogar no psicológico. Desestabilizando o adversário e a arbitragem. Era o que dizia:
- Vamos jogar na mente deles. Dá uma, para os caras saberem quem vai bater e quem vai apanhar no campo.
Era uma mistura de habilidade, raça e muita gritaria. Na várzea, muito jogo se ganha no grito e na cara feia.
Pois o boleiro que se presa, não dá ideia. Até quando está errado vai pra cima.
Cobra.
Dá de dedo.
Esbafora na cara de quem for.
Foi tenso.
Não sei se pela idade, pois já cheguei as 4.2.
Ou se foi pela partida que estava quente e bem pegada.
Briguei tanto, que me recordei de meu primeiro jogo no elenco de Titulares quando fui promovido da equipe de Aspirantes do Vasco da Vila Industrial.
Confesso que gelei. Gelei tanto quanto os meninos que correram ao meu lado hoje.
Mas oportunidades são oportunidades. E todos temos as nossas.
Hoje foi a deles.
Fizeram cara de bravos. Xingaram, e até bateram boca.
Em meio as rodinhas de empurra-empurra, tornei-me a recordar deste dia.
Já tinha experiência. Havia sido campeão do Interbairros de 1992 com o mesmo elenco. Jogava a partida de abertura dos Titulares. Vivia me lavando em cânfora, pois acreditava que aquilo ajudava no desempenho físico na partida.
Tinha moral no elenco e com a diretoria do time.
Era um dos zagueiros titulares da equipe.
Já tinha fama de jantador.
Isso, aos 16 anos de idade.
Mas, ainda era um moleque. Jogava no domingo, e na segunda ficava de olho na programação esportiva da Rádio Londrina. Mal respirava, à procura de algum comentário sobre a jovem dupla de zagueiros que assustava experientes atacantes como Tiziu e Marcão.
Já havia sido expulso por briga em semifinal de campeonato. fora que nunca afina nas muitas tretas de campo. Saiu porrada. Era um dos primeiros a chegar, sempre com empurrões e limpa trilhos. Um orgulho para quem estava começando. Isso dava moral com os parceiros e com a torcida.
- Fulano? Esse não arrega não. Vai pra cima e tenta a sorte.
Era assim que ria o pessoal do alambrado.
Mesmo assim, tremi ao escutar o meu nome como zagueiro titular naquela partida.
Seria titular, na equipe de Titulares.
Um nível acima.
Jogaríamos no campo da Água das Pedras, contra um time local, que acabara de ser campeão em Primeiro de Maio.
Mas o que me fez tremer, não foi o adversário.
Foi o fato de ter que jogar ao lado do grande João Carlos. Cena que se repetiu durante toda aquela temporada.
Não era qualquer zagueiro.
Estava do lado de uma lenda do Fraternidade, da Vila Ricardo, do CSU e da Vila Santa Terezinha.
Carrancudo e de pernas tortas. Baixo para zagueiro.
Dono de um tempo de bola impressionante.
Iria dividir a entrada da área com um zagueiro experiente. Malandro de bola que não admitia erros.
substituiria o seu irmão Ná.
Estava tão pálido ao entrar em campo que ele logo percebeu.
Enquanto batíamos bola na lateral do campo, se aproximou, e de forma direta me perguntou:
- Vestiu o uniforme?
Sem entender, respondi-lhe que sim.
Seco, sem dar margem para ser questionado:
- Então você sabe jogar. Vamos para o jogo, e se o centroavante não tiver espaço, você foi o melhor em campo.
Essas foram as minhas boas vindas no Titular.
Era a deixa que queria.
Perdemos a partida por um placar simples, em um jogo que tiveram que trocar  o centroavante devido aos "contatos" de jogo.
Foi uma partida memorável.
Mas o que ficou daquela partida foi a fala do João.
Nada de "vamos lá" ou "pega leve com o moleque".
Entrou em campo.
É homem.
Se é homem, então tem que jogar como homem.
O boleiro na várzea. O boleiro, não o jogador.
O boleiro é moldado no facão.
Esse mostra a sua natureza em jogos difíceis.
Afinal, todo homem gosta é de grandes desafios.
Hoje, repeti aos garotos essa frase várias vezes ao longo do jogo.
Tinha que mante-los pilhados. Atentos.
Tem jogo que a rodagem faz com que você assuma o psicológico da disputa.
Era assim o João em campo.
Pilhava todo mundo.
Foi um ídolo que vi de perto. Ao lado.
Fui moldado no facão. E hoje, pude ver meninos assumirem o papel de homens.
Trombarem como homens.
Chamarem a dura responsabilidade da cobertura.
Vi um garoto silencioso emendar dois gols de placa.
Briguei com quem pude brigar. E olha que foi com quase todo mundo.
É o problema da peça bruta. A principal qualidade da malandragem.
Coisa que só se aprende no campo.
À minha frente, um garoto.
 Tremeu quando nosso volante foi expulso.
Tremeu, mas não amarelou.
 Não tinha jeito, seria ele mesmo.
Jogou. Bateu e jogou.
Lembrou-me muito um jovem que a exatos 25 anos entrava inseguro em campo, cuja  receptividade, foi a mesma:
- Se ele não tocar na bola, você jogou muito.






segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Delicadeza em pessoa



Ele teve a pachorra de dizer que só havia pego na bola.
Na bola!
Afinal, qual a intenção última da disputa futebolística?
Oras! Conquistar a bola.
E era isso que havia feito. Conquistado na raça, do jeito que a torcida gosta.
Um lindo jacará ao estilo Junior Baiano.
Como prêmio, o cartão amarelo.
E para provocar ainda dizia:
- Poderia ter pego o adversário.
Se a atingida foi a bola, então porque marcou a falta?
Era o que perguntava.
Porque deu a falta.
Ah! Isso é pessoal. Ficou clara a implicância. Não havia rompido ligamentos, sequer um entorse. E o autoridade passa uma dessa.
Agora árbitro virou futurologista?
É médico ortopedista?
A gente mergulha no lance e o assoprador tem o diagnóstico.
Isso é ofensivo.
Como assim amarelo?
A janta foi na bola. Foi bonito. Plástico.
Sem discussão. Altivo, quase a sombra da arrogância. Lá estava ele com o cartão em riste. Convicto de sua decisão.
Gritava. Enfiava-lhe o dedo à cara. E nada. Sequer olhava. Mantinha a punição erigida em sua mão direita.
A raiva só aumentava. Estava inconformado.
Amarelo?
Mas foi apenas um carrinho!
Alguns árbitros são verdadeiras mães de atacante. Gritou "ai". O assoprador aponta.
Isso irrita até zagueiros com a calma de um Gamarra. Imagina um zagueiro criado na tradição de caçador.
O distinto apitador resolveu implicar.
Deu de tudo.
Encontrão de leve.
Falta.
Tapa no peito.
Falta.
Trombada no ombro.
Falta.
Não tinha jeito. A cada lance uma falta.
Era jogo para ir embora mais cedo.
Dito e feito.
Sobrou uma agulha, e lá estava ele.
Como uma mãe acolhedora, pronta para embalar o atacante.
A luz do sol ficou azul por alguns segundo. O figura, apontava o cartão para o céu. O mais alto que conseguia.
Com azul não há conversa.
É beira de campo ou chuveiro mesmo.


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Patriotismo sazonal

fonte da imagem: http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/fotos/2014/06/leitores-enviam-fotos-de-ruas-enfeitadas-para-copa.html


Quarta-feira em dia de jogo de seleção. As ruas estavam vazias. Ou praticamente vazias. Transitavam pelas vias alguns poucos desinformados, e outros, esses que deliberadamente, como réprobos da pátria, ignoravam os heróis nacionais que em questão de poucas horas entrariam em campo.
O que se multiplicava pelas esquinas eram vendedores de camisetas, bandeiras e todo o tipo de souvenir patriótico. Senti-me um traidor. Mas continuei minha marcha.
As fachadas estavam decoradas. Sinceramente, não muitas. Reflexo da péssima estreia contra a Suíça.
 Em um colégio ouvia-se o aquece de alunos na organização do grito de possíveis gols canarinhos. Resisti a tudo. E rumei para o trabalho. Ao estacionar, uma senhora questionou-me sobre sua bandeira:
- Nossa bandeira está visível.
Disse-lhe que sim.
Continuou:
- Mas está bonita? O que acha?
Ri, e disse-lhe que estava bonita. Bonita e visível.
Perguntava-me como se quisesse confirmar seu voto patriótico.
Fez-me lembrar de minha infância. De minha primeira Copa.
Na escola, pintávamos bandeirinhas em cópias mimeografadas ainda cheirando a álcool.  Não eram copias qualquer. Havia dizeres. Dizeres de apoio. Frases otimistas que segundo nossas mentoras, levariam energia positiva aos nossos craques, que em seu heroísmo homérico confrontariam em campos estrangeiros, inimigos vis.
Lembro-me das bandeiras pintadas com guache nos muros da escola. Dos jogos de figurinhas nos intervalos. Os gizes coloridos redecoravam o piso do pátio. Discutíamos avidamente os craques das rodadas. As jogadas. Sempre observados por olhares curiosos. Pareciam aprender sobre a magia da bola, através da conversa de meninos. Meninos. Copa era assunto sério.
Era tamanha a euforia, que as zeladoras sempre carrancudas com nossos deslizes, sequer manifestavam. Ao contrário, assistiam às partidas no pátio, aplaudiam-nos. Até torciam.  Arriscavam em comentários futebolísticos. Algumas, sensibilizadas pelo momento, trazia-nos figurinhas.
Em época de Copa, éramos comandados por senhoras. O hino nacional era executado diariamente. E, em jogos da seleção, cantado a pulmões cheios. Cheios de ar e esperança. Sentia-me perfilado ao lado de Sócrates, Zico, Edinho e companhia. Como se tivesse a bola abaixo dos pés.
Era um patriotismo ingênuo. De saias. Cantado e pintado. De professoras, em sua maioria, senhoras, que nos educavam em um civismo maternal.
Era um patriotismo cíclico.  Que como tal, terminara com as cobranças de pênaltis. Encerrado na parede francesa.
Adeus às bandeiras.
As fachadas voltaram a sua frieza.
E nós, voltávamos à rotina, na expectativa de que dali há quatro anos tudo fosse diferente.
E veio 1990.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Trabalho feito

fonte da imagem: http://novaspensatas.blogspot.com/

Deu ruim?
É trabalho feito.
Se o time está em crise, algo de errado está acontecendo em planos sobrenaturais.
Recentemente saíram com a história do uniforme macumbado.Isso mesmo, zicado, já veio com mandinga.
Boleiro é muito supersticioso. Basta dar-lhe motivo, e as histórias fluem.
A única certeza era que a zica alojou. Parecia ter incrustado no tecido. E de lá não saia.
Após a hipótese, surgiram as mais diversas justificativas para derrotas inexplicáveis.
Só não apontaram o óbvio.
Isso era evidente. A quem interessa explicar que o time não anda bem?
Melhor que a culpa seja do Diabo, ou de seus associados.
Caíram na besteira de fazerem tal apontamento.
Já apareceu no grupo aquele que dizia ser obra do Coisa Ruim.
Em meio as discussões acaloradas, teve membro da diretoria falando em queimar o pobre.
Mas não sem antes dar-lhe um banho de sal para purificar.
Indicaram pastores, rezadeiras e todo sujeito encantado capaz de tirar encosto.
Mas faltou consenso.
O whatsapp ferveu.
De um lado os descompromissados, brincalhões que não entendem a dimensão da crise instaurada no grupo. Afinal, tratava-se de um jejum de mais de dez partidas.
Do outro lado, a diretoria e os atletas compenetrados em romper com o olho ruim.
A bagunça estava formada.
Era jogador desesperado em meio a engraçadinhos que só queriam aprontar.
Um reclamava de cá, e postava até oração.
Outros, enchiam a tela de emojis e volta e meia um vídeo de sacanagem.
Em meio a tudo isso aparecia um mais informado avisando do jogo da Seleção.
Em reuniões assim tem a turma da visualização.
Esses, só observavam preferiram se abster.
Tudo parecia certo.
O Trabalho iria acontecer.
O pobre uniforme pagaria sozinho as caneladas na bola.
Sofreria o flagelo dos mártires.
Deu ruim.
Queima.
Reunião encerrada.
Até a próxima postagem.

"Jogo confirmado. Confirma ai quem vai"
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Um ou dois confirmaram.
E a culpa é do uniforme.