domingo, 19 de maio de 2019

Sem heresias, por favor.



Tenho minhas convicções.
E uma delas é não rezar antes ou durante as partidas de futebol.
Faço figa roo as unhas. Mas rezar.
Isso não faço não.
Não faço mesmo.
Seria uma heresia.
Muitos me questionaram sobre esse posicionamento, mas tenho por hábito manter minhas convicções.
Todo jogo, minutos antes de entrarmos em campo, faça chuva ou faça sol. Sempre tem o puxador de oração do elenco que reúne o grupo no centro do gramado para a tradicional oração da partida.Tem jogador que não briga por uma úncia bola em campo, mas se não tiver oração, se recusa a entrar em campo.
É a mais pura manifestação de fé. Dos dois lados, é claro.
Alguns atletas realmente acreditam que ganharão o jogo rezando mais alto que o adversário. Alguns chegam a entrar em transe.
A fé do atleta é medida por sua posição.
Quanto mais exposta a posição do indivíduo no campo, mais fervorosa suas preces.
Acredito que alguns rezam para batermos menos lá trás.
Atacante e meia até parecem que estão em cultos.
Com os pulmões cheios. Fecham os olhos e clamam.
Alguns lembram ao Bondoso Deus que na segunda-feira é dia de labuta.
A fé também é medida por fases do clube.
Quando a fase está ruim, tem rosário no meio da roda, jogador de olhos vibrando e até improviso nos versos da prece.
Mas quando a fase está boa, aí vem a trairagem. Nosso Senhor sequer é lembrado.
Não é fácil ser coerente. Fazem de tudo para lhe desacreditar em suas convicções.
Já participei de reuniões em que se debateu se deveríamos rezar antes e depois do jogo. E sempre tem o oportunista que questiona se podemos inserir mais uma oração para fechar a corrente.
O fato é que não sou herético.
O Felipe Melo sim.
Eu não.
Não rezo mesmo.
Isso é caso decidido.
Não rezo e todo atacante sabe o porque.
Nas orações, tenho por hábito contar o número de adversários enquanto oram.







sábado, 20 de abril de 2019

Hoje eu "se" consagro



O que passa na cabeça de um jogador nos metros finais de uma arrancada perfeita?
Zagueiro ao chão.
O volante já esbaforido, como que aceitando o desfecho da jogada.
São poucos passos que faltam.
Uma arrancada perfeita.
Da intermediária.
Talvez, a cada passo, o som dos gritos apaixonados da torcida.
Os abraços fraternais de seus companheiros de equipe.
O som da rede.
A sua frente apenas o goleiro. Os olhos em desespero, dilatam-se para a bola. Indeciso sobre a direção do chute ainda não armado. Corpo tenso. Arqueado. Mãos trêmulas e espalmadas.
Uma arrancada perfeita.
Os passos de sua corrida eram ensurdecedoramente escutados por todos.
Por alguns segundos deixamos de respirar.
Era a certeza do gol.
Posicionamento frontal. Na marca do pênalti.
Inevitável. Foi uma arrancada perfeita.
Muitos dirão que driblou meio time antes do arremate fatal.
Outros que se desvencilhou dos melhores marcadores.
As histórias se confundirão com as paixões.
Qual será a sua história desta arrancada?
Mas, o que passa na cabeça de um jogador neste metros finais, no momento do chute?
Não de um chute qualquer. Um chute digno de sua arrancada.
A bola fora roubada na intermediária. Uma corrida em diagonal.
Inesperadamente perfeita, em um jogo tenso e de marcação pesada.
Braços e pernas pareciam foices que arranham o ar e a grama.
Seu corpo durante vinte. Trinta metros. Ou quase isso. Esgueirou-se. Ora em força. Ora na mais pura habilidade.
Arrancou com a força de sua juventude.
Correu. Como correu!
Mas entre o ímpeto do jovem atleta e o gol, havia uma chuteira velha. Gasta por partidas repetidamente disputadas.
Em seu momento derradeiro. Ao alavancar o corpo para chute, eis que o destino lhe traí.
Ou melhor. Suas chuteiras.
Do gol como vista final, em menos de um segundo, os céus.
Literalmente os céus.
Foi um tombo. Limito-me a isso.
Um tombo
Mas, o que passa na cabeça de um jogador no momento do chute que não deu?
O som do pé contra a bola?
O som do salto do goleiro?
A bola que se esfrega na rede?
Nada disso lhe consolou.
Foi uma arrancada perfeita.
Sobrou-lhe apenas a grama.







segunda-feira, 11 de março de 2019

A lei da reciprocidade

fonte: https://www.ludopedio.com.br/futebol-arte/carrinho-8/
fotógrafo: Jorge Zubillaga 

Se há um lugar onde a Lei da reciprocidade é aplicada, esse lugar é a várzea.
Não há pontapé sem revide.
Todo tapa tem um complemento. Tudo funciona dentro da ética futebolística.
É consenso nos campos: bateu... Aguenta apanhar.
Na várzea, quando se começa uma partida batendo, é importante ter opinião e sustentar a posição até o final. Mesmo que esse seja antecipado. 
Mas tem que se ter opinião.
Bateu no primeiro, já dá no segundo para impor o respeito.
O problema deste tipo de jogo é o efeito dominó que causa.
É comum em jogos disputados em seu ápice de virilidade algum atacante que se sinta maltratado pelas travas do marcador gritar para seu zagueiro de confiança:
- Oh fulano, bate ai que aqui os caras estão descendo a lenha.
Geralmente solicitam os serviços aos tipos mais simpáticos que carregam alcunhas cravadas a unha.
Tonhão. Baiano. Bagaça. Didão, Trinca Osso, Banguela... Uma infinidade de aumentativos e superlativos que comprovam e valorizam os tipos físicos e suas respectivas disposições para o ofício.
Esses já assustam alguns na sombra que projetam no campo.
Mas têm os "migué". Os tipo franzino que mal aguentam um tapa, mas narram a partida. 
Começou a confusão, são os primeiros a fazerem a fumaça.
Jogam o tempo todo na cabeça do adversário:
- E ai parceiro, poderia ter deixado o pé.
-Leu o número da chuteira?
- Levanta que só começamos.
-Passou a mão na boca porque? Nem saiu sangue.
É o tal "jogo no psicológico". Só para ver se treme.
E tem jogador que fica igual a bambu. Alguns do nada saem do jogo.
Têm até crise de pânico.
Dizem que zagueiro e volante não têm juízo. Batem para ver o tombo. Sempre considerei essa colocação uma injustiça com o ofício.
E foi numa destas que presenciei algo improvável.
Depois de um atropelo no meio de campo. Daqueles de formar bolinho. 
Posicionava-me na marcação dentro da área, quando ouvi uma voz fraca e trêmula me chamar.
Um som abafado, meio encabulado.
O sujeito estava pálido, compunha a base da barreira.
Chamou-me uma ou duas vezes. Não lembro.
O que lembro foram suas palavras. Quase uma súplica em desespero:
- PENSA EM NÓS... EM NÓS.
Parecia prever o que estava por vir.
Apanhou uma.
Duas.
Três.
Era incansável o botinudo que lhe descia o sarrafo.
Minutos depois, lá estava ele, sentado à beira do campo com o tornozelo inchado e continuava a queixar-se:
- POXA, QUANDO FOR BATER, PENSA EM NÓS...

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A regra 12 e a ética rodriguiana

fonte:
http://redeglobo.globo.com/globoteatro/bis/noticia/2013/09/nelson-rodrigues-fas-famosos-falam-de-sua-admiracao-pelo-autor.html


Sempre tive comigo que a falta faz parte do jogo, é ação do esperto, do sábio futebolístico, que entende e respeita a destreza do adversário. RESPEITA e ENTENDE, não disse que ACEITA.
Os aforismos povoam o fino das narrativas futebolística. E o meu, era dotado de uma honestidade dos grandes homens. A mais pura ética de zagueiros educados com entrevistas de Wilson Gottardo e leitura de Albert Camus.
Hiperbólica por natureza, as vozes que alimentam esse imaginário se fazem valer dos exemplos mais esdrúxulos ou improváveis. 
Essa semana, peguei-me lembrando do grande Nelson Rodrigues.
Não sem motivo.
Em meio ao Fla-Flu das organizadas dos presidenciáveis, deparei-me com suas palavras soltas em um artigo. Sem contexto. Citada, de forma cruel. Com página e data, e basta.
Suas palavras estavam soltas, mas não sem sentido. 
Li. Ruminei, palavra a palavra. 
Cada vogal. 
Cada consoante. 
Ponto a ponto. 
Tentei me desvincilhar do texto. Sequer lembro do autor. Ou do que se tratava o material, mas as palavras rodriguianas.
Ah! Essas palavras. Essas as gravei, como uma cicatriz.
Ecoavam-me. Convidavam-me a rumina-las.

"Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos".

Sobre o autor?
Jornalista e torcedor fanático do Fluminense.
Esse era Nelson Rodrigues.
Justo o Fluminense!
O time que nos deve a série C. 
Nos deve pela moralidade do futebol. 
O time dos tapetões.
Nunca tão poucas palavras foram tão verdadeiras.
Ruminavam-me. Não mais as ruminava. Ruminavam-me.
- "É a falta de caráter que decide uma partida".
A falta de caráter.
La mano de Dios.
O tapinha de Thierry Henry.
Os giros. 
Os ais. 
E tudo quanto é espertezas surrupiosas.
Realmente, Nelson Rodrigues estava coberto em suas razões. São três momentos da ética cujos bons sentimentos não se aplicam.
Há meses, vivemos um Fla-Flu que ambas as torcidas jogam uma partida de mentiras.
E o irônico!
As pessoas querem. Clamam por serem enganadas.
Elegeremos o primeiro presidente de campanha em Whatsapp, Instagram e Facebook.
Vivemos em rede. Perdemos o contato físico. 
O cara a cara.
Campanhas fantasmas, sem debates.
Sem debates!
Um facínora que se fez por um kit gay.
Talvez, fantasia e sonho de consumo de muito pai de família.
Daria um conto.
Assim como na literatura, a política passou a se alimentar de veredas midiáticas.
O futebol iniciou essas discussões ao trazer para os gramados os craques de vídeo tape.
É demais para o meu Brizolismo, Lulismo, Curintianismo, varzismo. 
É demais para qualquer ismo destes tantos anos de vida.
Mas de todos, o que mais sofre, é o saudosismo. 
Acabou o palanque.
O bate-boca.
Sem direito a uma nova Democracia "curintiana".
Sem Dotô e Casão.
Bêbados e conscientes.
Nunca Nelson Rodrigues, o homem que não errava, esteve tão certo.
Secou. 
Não há mais malandro no campo.
Sequer na várzea.
Não temos embates.
Tudo. Infinitamente tudo se decide pela regra.
Ou melhor, em suas brechas.
Estamos na era do VAR.
Sem banguelas de radinho na arquibancada.
Como o Flamengo deixa de ser grande com isso.
Hoje é no grito.
Lá do alto. 
Das numeradas e cativas.
É tudo no pode ou não pode.
E as más intenções se alimentam disso.
Da regra 12.
De subterfúgio virou  um tumor.
Um buraco negro de replays e fones.
Efetivamente, apresentaram-nos a regra 12.
Vale tudo.
Do ponta-pé à voadora.
Está na moda o fake.
Palavra gringa para classificar o mentiroso.
Mas pior que o mentiroso é o cidadão que se pretende.
Se pretende enganar.
Mas pode.
Na regra 12, acreditamos no que queremos.
Míopes como árbitros condescendentes.
A regra 12 nos permite a passionalidade. Sermos seletivos em sua aplicação.
Como dizem os entusiastas: 
"- Podemos tirar quem quisermos".
Está na regra!
É interpretável e pronto. 
E a interpretação que vale?
A minha. É óbvio.






domingo, 7 de outubro de 2018

Moldado a facão

O grande Gilmar Fubá na Várzea, na Copa Kaiser, 2012.
fonte: https://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/copa-kaiser/ultimas-noticias/2012/03/27/futebol-de-varzea-discute-ate-teto-salarial-apos-times-gastarem-mais-de-r-100-mil-por-ano.htm


As lembranças parecem ser a força deste gênero literário tão prosaico que é a crônica. Lembrar, talvez seja a única forma de nos mantermos ativos.
Pois, o lembrar nos permite a saudade. E isso, por si só, já basta.
Hoje, em campo, a pilha era tanta, que lembrei do finado João Carlos.
Para ele, jogo pilhado era festa. Gostava de irritar a torcida adversária. volta e meia dava um atropelo nos canela cinza da beira de campo.
Juiz com ele?
Esse não tinha vez.
Eram vários: "pega leve João". Fora e dentro do campo.
Mas não tinha jeito. quando o homem cismava, acabou. Ia dar confusão.
Era um mestra na malandragem em campo.
Sabia jogar no psicológico. Desestabilizando o adversário e a arbitragem. Era o que dizia:
- Vamos jogar na mente deles. Dá uma, para os caras saberem quem vai bater e quem vai apanhar no campo.
Era uma mistura de habilidade, raça e muita gritaria. Na várzea, muito jogo se ganha no grito e na cara feia.
Pois o boleiro que se presa, não dá ideia. Até quando está errado vai pra cima.
Cobra.
Dá de dedo.
Esbafora na cara de quem for.
Foi tenso.
Não sei se pela idade, pois já cheguei as 4.2.
Ou se foi pela partida que estava quente e bem pegada.
Briguei tanto, que me recordei de meu primeiro jogo no elenco de Titulares quando fui promovido da equipe de Aspirantes do Vasco da Vila Industrial.
Confesso que gelei. Gelei tanto quanto os meninos que correram ao meu lado hoje.
Mas oportunidades são oportunidades. E todos temos as nossas.
Hoje foi a deles.
Fizeram cara de bravos. Xingaram, e até bateram boca.
Em meio as rodinhas de empurra-empurra, tornei-me a recordar deste dia.
Já tinha experiência. Havia sido campeão do Interbairros de 1992 com o mesmo elenco. Jogava a partida de abertura dos Titulares. Vivia me lavando em cânfora, pois acreditava que aquilo ajudava no desempenho físico na partida.
Tinha moral no elenco e com a diretoria do time.
Era um dos zagueiros titulares da equipe.
Já tinha fama de jantador.
Isso, aos 16 anos de idade.
Mas, ainda era um moleque. Jogava no domingo, e na segunda ficava de olho na programação esportiva da Rádio Londrina. Mal respirava, à procura de algum comentário sobre a jovem dupla de zagueiros que assustava experientes atacantes como Tiziu e Marcão.
Já havia sido expulso por briga em semifinal de campeonato. fora que nunca afina nas muitas tretas de campo. Saiu porrada. Era um dos primeiros a chegar, sempre com empurrões e limpa trilhos. Um orgulho para quem estava começando. Isso dava moral com os parceiros e com a torcida.
- Fulano? Esse não arrega não. Vai pra cima e tenta a sorte.
Era assim que ria o pessoal do alambrado.
Mesmo assim, tremi ao escutar o meu nome como zagueiro titular naquela partida.
Seria titular, na equipe de Titulares.
Um nível acima.
Jogaríamos no campo da Água das Pedras, contra um time local, que acabara de ser campeão em Primeiro de Maio.
Mas o que me fez tremer, não foi o adversário.
Foi o fato de ter que jogar ao lado do grande João Carlos. Cena que se repetiu durante toda aquela temporada.
Não era qualquer zagueiro.
Estava do lado de uma lenda do Fraternidade, da Vila Ricardo, do CSU e da Vila Santa Terezinha.
Carrancudo e de pernas tortas. Baixo para zagueiro.
Dono de um tempo de bola impressionante.
Iria dividir a entrada da área com um zagueiro experiente. Malandro de bola que não admitia erros.
substituiria o seu irmão Ná.
Estava tão pálido ao entrar em campo que ele logo percebeu.
Enquanto batíamos bola na lateral do campo, se aproximou, e de forma direta me perguntou:
- Vestiu o uniforme?
Sem entender, respondi-lhe que sim.
Seco, sem dar margem para ser questionado:
- Então você sabe jogar. Vamos para o jogo, e se o centroavante não tiver espaço, você foi o melhor em campo.
Essas foram as minhas boas vindas no Titular.
Era a deixa que queria.
Perdemos a partida por um placar simples, em um jogo que tiveram que trocar  o centroavante devido aos "contatos" de jogo.
Foi uma partida memorável.
Mas o que ficou daquela partida foi a fala do João.
Nada de "vamos lá" ou "pega leve com o moleque".
Entrou em campo.
É homem.
Se é homem, então tem que jogar como homem.
O boleiro na várzea. O boleiro, não o jogador.
O boleiro é moldado no facão.
Esse mostra a sua natureza em jogos difíceis.
Afinal, todo homem gosta é de grandes desafios.
Hoje, repeti aos garotos essa frase várias vezes ao longo do jogo.
Tinha que mante-los pilhados. Atentos.
Tem jogo que a rodagem faz com que você assuma o psicológico da disputa.
Era assim o João em campo.
Pilhava todo mundo.
Foi um ídolo que vi de perto. Ao lado.
Fui moldado no facão. E hoje, pude ver meninos assumirem o papel de homens.
Trombarem como homens.
Chamarem a dura responsabilidade da cobertura.
Vi um garoto silencioso emendar dois gols de placa.
Briguei com quem pude brigar. E olha que foi com quase todo mundo.
É o problema da peça bruta. A principal qualidade da malandragem.
Coisa que só se aprende no campo.
À minha frente, um garoto.
 Tremeu quando nosso volante foi expulso.
Tremeu, mas não amarelou.
 Não tinha jeito, seria ele mesmo.
Jogou. Bateu e jogou.
Lembrou-me muito um jovem que a exatos 25 anos entrava inseguro em campo, cuja  receptividade, foi a mesma:
- Se ele não tocar na bola, você jogou muito.






segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Delicadeza em pessoa



Ele teve a pachorra de dizer que só havia pego na bola.
Na bola!
Afinal, qual a intenção última da disputa futebolística?
Oras! Conquistar a bola.
E era isso que havia feito. Conquistado na raça, do jeito que a torcida gosta.
Um lindo jacará ao estilo Junior Baiano.
Como prêmio, o cartão amarelo.
E para provocar ainda dizia:
- Poderia ter pego o adversário.
Se a atingida foi a bola, então porque marcou a falta?
Era o que perguntava.
Porque deu a falta.
Ah! Isso é pessoal. Ficou clara a implicância. Não havia rompido ligamentos, sequer um entorse. E o autoridade passa uma dessa.
Agora árbitro virou futurologista?
É médico ortopedista?
A gente mergulha no lance e o assoprador tem o diagnóstico.
Isso é ofensivo.
Como assim amarelo?
A janta foi na bola. Foi bonito. Plástico.
Sem discussão. Altivo, quase a sombra da arrogância. Lá estava ele com o cartão em riste. Convicto de sua decisão.
Gritava. Enfiava-lhe o dedo à cara. E nada. Sequer olhava. Mantinha a punição erigida em sua mão direita.
A raiva só aumentava. Estava inconformado.
Amarelo?
Mas foi apenas um carrinho!
Alguns árbitros são verdadeiras mães de atacante. Gritou "ai". O assoprador aponta.
Isso irrita até zagueiros com a calma de um Gamarra. Imagina um zagueiro criado na tradição de caçador.
O distinto apitador resolveu implicar.
Deu de tudo.
Encontrão de leve.
Falta.
Tapa no peito.
Falta.
Trombada no ombro.
Falta.
Não tinha jeito. A cada lance uma falta.
Era jogo para ir embora mais cedo.
Dito e feito.
Sobrou uma agulha, e lá estava ele.
Como uma mãe acolhedora, pronta para embalar o atacante.
A luz do sol ficou azul por alguns segundo. O figura, apontava o cartão para o céu. O mais alto que conseguia.
Com azul não há conversa.
É beira de campo ou chuveiro mesmo.


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Patriotismo sazonal

fonte da imagem: http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/fotos/2014/06/leitores-enviam-fotos-de-ruas-enfeitadas-para-copa.html


Quarta-feira em dia de jogo de seleção. As ruas estavam vazias. Ou praticamente vazias. Transitavam pelas vias alguns poucos desinformados, e outros, esses que deliberadamente, como réprobos da pátria, ignoravam os heróis nacionais que em questão de poucas horas entrariam em campo.
O que se multiplicava pelas esquinas eram vendedores de camisetas, bandeiras e todo o tipo de souvenir patriótico. Senti-me um traidor. Mas continuei minha marcha.
As fachadas estavam decoradas. Sinceramente, não muitas. Reflexo da péssima estreia contra a Suíça.
 Em um colégio ouvia-se o aquece de alunos na organização do grito de possíveis gols canarinhos. Resisti a tudo. E rumei para o trabalho. Ao estacionar, uma senhora questionou-me sobre sua bandeira:
- Nossa bandeira está visível.
Disse-lhe que sim.
Continuou:
- Mas está bonita? O que acha?
Ri, e disse-lhe que estava bonita. Bonita e visível.
Perguntava-me como se quisesse confirmar seu voto patriótico.
Fez-me lembrar de minha infância. De minha primeira Copa.
Na escola, pintávamos bandeirinhas em cópias mimeografadas ainda cheirando a álcool.  Não eram copias qualquer. Havia dizeres. Dizeres de apoio. Frases otimistas que segundo nossas mentoras, levariam energia positiva aos nossos craques, que em seu heroísmo homérico confrontariam em campos estrangeiros, inimigos vis.
Lembro-me das bandeiras pintadas com guache nos muros da escola. Dos jogos de figurinhas nos intervalos. Os gizes coloridos redecoravam o piso do pátio. Discutíamos avidamente os craques das rodadas. As jogadas. Sempre observados por olhares curiosos. Pareciam aprender sobre a magia da bola, através da conversa de meninos. Meninos. Copa era assunto sério.
Era tamanha a euforia, que as zeladoras sempre carrancudas com nossos deslizes, sequer manifestavam. Ao contrário, assistiam às partidas no pátio, aplaudiam-nos. Até torciam.  Arriscavam em comentários futebolísticos. Algumas, sensibilizadas pelo momento, trazia-nos figurinhas.
Em época de Copa, éramos comandados por senhoras. O hino nacional era executado diariamente. E, em jogos da seleção, cantado a pulmões cheios. Cheios de ar e esperança. Sentia-me perfilado ao lado de Sócrates, Zico, Edinho e companhia. Como se tivesse a bola abaixo dos pés.
Era um patriotismo ingênuo. De saias. Cantado e pintado. De professoras, em sua maioria, senhoras, que nos educavam em um civismo maternal.
Era um patriotismo cíclico.  Que como tal, terminara com as cobranças de pênaltis. Encerrado na parede francesa.
Adeus às bandeiras.
As fachadas voltaram a sua frieza.
E nós, voltávamos à rotina, na expectativa de que dali há quatro anos tudo fosse diferente.
E veio 1990.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Trabalho feito

fonte da imagem: http://novaspensatas.blogspot.com/

Deu ruim?
É trabalho feito.
Se o time está em crise, algo de errado está acontecendo em planos sobrenaturais.
Recentemente saíram com a história do uniforme macumbado.Isso mesmo, zicado, já veio com mandinga.
Boleiro é muito supersticioso. Basta dar-lhe motivo, e as histórias fluem.
A única certeza era que a zica alojou. Parecia ter incrustado no tecido. E de lá não saia.
Após a hipótese, surgiram as mais diversas justificativas para derrotas inexplicáveis.
Só não apontaram o óbvio.
Isso era evidente. A quem interessa explicar que o time não anda bem?
Melhor que a culpa seja do Diabo, ou de seus associados.
Caíram na besteira de fazerem tal apontamento.
Já apareceu no grupo aquele que dizia ser obra do Coisa Ruim.
Em meio as discussões acaloradas, teve membro da diretoria falando em queimar o pobre.
Mas não sem antes dar-lhe um banho de sal para purificar.
Indicaram pastores, rezadeiras e todo sujeito encantado capaz de tirar encosto.
Mas faltou consenso.
O whatsapp ferveu.
De um lado os descompromissados, brincalhões que não entendem a dimensão da crise instaurada no grupo. Afinal, tratava-se de um jejum de mais de dez partidas.
Do outro lado, a diretoria e os atletas compenetrados em romper com o olho ruim.
A bagunça estava formada.
Era jogador desesperado em meio a engraçadinhos que só queriam aprontar.
Um reclamava de cá, e postava até oração.
Outros, enchiam a tela de emojis e volta e meia um vídeo de sacanagem.
Em meio a tudo isso aparecia um mais informado avisando do jogo da Seleção.
Em reuniões assim tem a turma da visualização.
Esses, só observavam preferiram se abster.
Tudo parecia certo.
O Trabalho iria acontecer.
O pobre uniforme pagaria sozinho as caneladas na bola.
Sofreria o flagelo dos mártires.
Deu ruim.
Queima.
Reunião encerrada.
Até a próxima postagem.

"Jogo confirmado. Confirma ai quem vai"
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Um ou dois confirmaram.
E a culpa é do uniforme.




domingo, 3 de junho de 2018

Doutorzinho



Depois da água, somente o doutorzinho.
É infalível.
Indicado por especialistas para qualquer problema de origem futebolística.
Chegou na farmácia, é coisa certa.
Até parece que esses estabelecimentos tem um especialista em problemas da boleiragem.
Boleiro que se preza tem o seu doutorzinho na bolsa.
A qualidade deste produto é medida no cheiro. Quanto mais forte o odor da cânfora, maior as suas propriedades medicinais.
O que não falta em vestiários são histórias, e o cheiro de cânfora.
Para ser específico, histórias de lesões. É ombro fraturado, tornozelo torcido, estiramento, tendinite, e todas as mazelas que um corpo pode sofrer.
O velho Tulipa, que o diga. Centroavante dos bons, do tipo matador. Trombava com tudo quanto é tipo de zagueiro. Principalmente os que não rezavam para dormir. Desses parecia gostar mais.
Era uma verdadeira Enciclopédia Clínica Futebolística.
Franzino e de tipo cavernoso.
Caminhava com suas pernas compridas e secas, com as meias arreadas, como se quisesse provocar os marcadores. Tinha o rosto coberto de salientes "crateras", uma barba totalmente falha que se desenhava por esses relevos, e as marcas dos pontos.
Havia domingos que aparecia com um dos olhos roxos ou inchados.
- O que aconteceu rapaz?
Com o cigarro ainda na boca respondia com sua voz sempre serena, parecendo minimizar o feito.
- Isso aqui? Foi nada não. Foi no jogo de quarta e um caminhão sem freio que veio pra cima de mim. Mas nós classificamos.
Era só isso que importava.
A classificação.
Era um boleiro de espírito.
Tinha uma tolerância a dor invejável.
Em todo campo que íamos, apanhava. E como apanhava.
Centroavante habilidoso apanha muito.
E são esses tipos que traziam a resenha para dentro de vestiário.
Moleque novo. Ou ficava admirado ou tremia.
Comecei no futebol vendo-o se lavar de doutorzinho nas tardes de domingo.
Quando perguntava para que servia aquilo, dizia que era para se prevenir das pancadas.
Sempre acreditei que era um tipo de anestésico.
Teve época de levar garrafadas para beira do campo.
Era um Xamã artilheiro.
Com ele aprendi que quanto mais velho o boleiro, maior o número de lesões e principalmente, das histórias das lesões que tem para contar.  Em suas mochilas, encontra-se de tudo, ataduras, pomadas, adesivos e até telefone de pai de santo.
É tanta história que assusta.
Tem jogador que impressionado, aplica o santo remédio antes mesmo de entrar em campo. Até aqueles que não tem problema algum. Esses, aplicam para se prevenir.
Recentemente descobri que se cheira a pomada. Isso mesmo. Antes de entrar em campo, deve-se cheirar um pouco. Para "abrir os pulmões".
Não emprestamos chuteiras.
Mas caiu no chão e gritou.
Alguém já pergunta:
- Tem doutorzinho ai?


Cativa no campo da Santa Cruz



Jogo em domingo de apagão, União Santa Cruz 1 x 4 Saul Elkind, em 27 de maio de 2018.

sábado, 28 de abril de 2018

O primeiro gol


fonte: http://www.ibom.com.br/exibeNoticias.php?id=183 (Fabiano Oliveira)

Seus olhos sempre brilhantes, naquele momento abriam-se na intensidade do feito.
Lentamente expandiram-se no rosto como que espantados.
Sua boca estava entrecerrada com seus próprios dentes que apreensivos agrediam-lhe a carne.
Foram longos dois ou três segundos.
Entre o momento em que a bola dividida sobrou-lhe na entrada da área e a tomada de decisão.
Decisão certeira.
De treino.
Tal como repetido, errado e acertado tantas vezes.
Pisar e chutar.
Pisou. Sapateou na troca de pernas.
E chutou.
Chutou no cantinho.
O goleiro até foi. Esticou o braço. Os olhos. Os dedos e a alma.
Mas não alcançou.
Foi porque tem que ir e pronto.
A bola bateu caprichosamente no pé da trave.
Para o desespero do goleiro, entrou vagarosa.
Despretensiosa.
Quanto ao jovem artilheiro?
Esse, sem saber o que fazer, apenas observou.
Com os olhos arregalados e um sorriso surpreso no rosto.
O jogo já estava ganho.
Sequer tinha noção disso.
Apenas contemplou por segundos o feito.
E quando a bola determinou seu trajeto. Euforicamente se segurou.
Mesmo com os gritos de seu nome que vinham da arquibancada.
Virou-se para seu próprio campo.
Quando deu por si, já o abraçavam.
Foi uma experiência única. Foram seus primeiros abraços em equipe. Naquele momento, pelo menos naquele momento, estava inserido no grupo.
Pelo menos naquele momento, não era o menino lento e desajeitado, deixado no banco de reservas, aos caprichos do esquecimento do treinador.
Por alguns segundos todos o viram.










quarta-feira, 4 de abril de 2018

Márcio, você viu

Rodrigo, o zagueiro da DEDADA deixa a Ponte Preta

Os gritos eram fortes
"Márcio você  viu. Márcio, você viu"
O jovem estava transfigurado.
Contido inicialmente por dois, depois três jogadores. E todos aqueles dispostos a segura-lo. Esbaforindo palavrões, lutava contra braços e corpos que se colocavam a sua frente.
Queria a alma de nosso lateral, que impassível, apenas levantava o braço em sinal de que não fez nada.
Uma atitude incrível de quem acabara de receber um chute pelas costas.
Era um chora daqui, que cobro dali.
todos pendurados no Márcio.
"Vai ter que ter punição".
"Como assim?"
O que deu nesse moleque, que continuava a gritar em direção ao árbitro.
"Márcio, você viu".
"Você viu sim".
E Márcio, esse era o nome do árbitro. Um negro corpulento, alto, de uma calma invejável. Com o semblante dos justos, procurava no bolso esquerdo de sua camisa o cartão. Faria justiça.
Tamanha covardia não poderia deixar de ser penalizada.
Por um momento, tomou o vermelho em mãos.
Mas, antes de levantá-lo, como que assaltado por uma dúvida.
Eis que levanta o azul.
Agora, éramos nós os indignados.
"Poxa Márcio, foi agressão. Você viu."
"No futebol pode tudo. Mas chutar assim, já é covardia. Azul está barato"
Impassível, com um toco de lápis em sua mão direita apenas anotava.
Sequer nos deu atenção. E para piorar, disse:
"Volta em cinco. Faltam seis. volta em cinco".
Na saída de campo, o jovem que passara por mim, repetia,
"Um minuto, ah! Eu pego ele".
Sequer sentou. Amparado por amigos tentava justificar sua atitude.
Não se conteve.
Estava em cólera.
Xingava à beira do campo. Incrédulo e revoltado com a pena atribuída a seu destempero. E repetia para si
"Eu pego ele, me põe que eu pego ele".
Em um plano que seria o revide mais rápido da história do futebol. Passaram mil estratégias. Todas fadadas ao peso do tempo.
E a vítima?
Afastado do centro da confusão, apenas ria enquanto era fitado por aquele olhar sedento de vingança.
O jovem não se conteve.
Aquilo era demais.
Humilhante.
De fora do campo, o garoto gritou.
Gritou com fúria.
Com os pulmões cheios.
Como macho ofendido.
Indignado pela cegueira de todos.
"ELE ENFIOU O DEDO NO MEU CU. NO MEU CU, OUVIU?"

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Goleiro bom... Vê Lobisomem

Lev Yashin, goleiro russo, o maior de sua posição, de acordo com a grande imprensa futebolística. Jogou as copas de 1958,1962, 1966 e 1970. Seus números são inimagináveis.
Fonte: https://www.rbth.com/sport/2014/04/21/the_modest_man_in_black_why_lev_yashin_never_lost_his_humility_36023.html 

Você deve estar se perguntando o que a criatura peluda, o mensageiro de Satanás tem haver com futebol. Ou melhor, com a qualidade do goleiro.
Mas goleiro bom, vê Lobisomem.
Parece que o encarnado escolhe aqueles que revelará sua figura. Geralmente sujeitos pacatos, que de tão calmos, intimidam.
Não se assuste. A sua surpresa não foi muito diferente da que tivemos naquele domingo.
Era um domingo comum, como de hábito, o vestiário estava agitado. Cheio de resenha tomada por uma atmosfera de cânfora. Tamanha a bagunça que até música tinha.
Em raros momentos de seriedade, vinham as prévias sobre o adversário. Foi aí, que o inesperado aconteceu.
Estava lá.
Sentado em uma cadeira na ante-sala do vestiário.
Impassível.
O goleiro.
Ele e sua visagem.
O silencioso falou.
E o som de sua voz, silenciou a todos.
Até os marrentos pararam de graça. Tinha sujeito, que perplexo, ouvia-o com as calças ainda nas mãos.
Todos foram pegos de surpresa, pois nosso Yashin nunca está presente no vestiário. Assustamos, é um sujeito calado. Daqueles que chega em campo concentrado." Não dá ideia".
Não emite som até o apito.
Sua preparação para a partida é praticamente um ritual.
Aquece e treina sozinho.
Finta seco os adversários. Em silêncio.
Mede a área. Passo a passo.
Sequer frequentava o vestiário. E isso, deixou todos apreensivos.
Seus hábitos diferem do todo nós. Enquanto em meio às resenhas, enrolamos para entrar em campo, basta apontar na escadaria e lá está ele, debaixo das traves. Se movimentando de um lado para o outro.
Todo de preto.
Sinistra a imagem.
Teve adversário que em meio as tentativas frustradas de gol, desanimado chegou a mencionar que o homem tem mais de dois braços e muito, mas muito mais de três metros de altura.
Não duvido. Pois, já cheguei acreditar que era mandinga.
Coisa de rezadeira.
Uniforme encantado.
O homem é uma parede.
Basta o apito e o vulto negro se espalha pela área.
Sai do silêncio absoluto para um conjunto de xingamentos e reclamações.
É uma parede.
Daquelas bem feitas. Que não cedem a qualquer vendaval.
Uma parede preta, um Lev Yashin.
Em meio a tantas manias.
Nesse dia falou.
Estranho.
Justo ele puxou o assunto.
Justo ele.
Foi um silêncio total.
Arregalava os olhos e bufava, imitando o encarnado.
"- Ontem a noite eu vi um Lobisomem. E ele bufou para mim."
Arregalava os olhos e bufava.
Imitava os passos. E repetia:
"- Ontem a noite eu vi um Lobisomem. E ele bufou para mim."
Nem o mais abusado dos jogadores, ousou discordar.
Quem estava descalço desceu as pressas para o campo, as chuteira?
Calçaram do jeito que deu.
Não tocamos no assunto. Só jogamos.


sábado, 27 de janeiro de 2018

O gol

fonte: https://www.soumeier.com.br/noticias/futebol-de-rua-9-machucados-que-quem-jogou-ja-teve/

Lá estava ele, solitário encostado no muro.
Montado como os grandes. Em ferro. De boa soldagem. Solitário.
Estava atrasado, mas parei.
Não estava jogado, ou guardado para o momento de uma partida digna de sua presença.
Estava posto.
Sobre a calçada.
Mas posto. Devidamente, montado, com marcação e tudo que lhe diz respeito.
A sua frente, abaixo do meio fio, havia uma área marcada em branco.
Em tinta óleo, milimetricamente marcada. Nas dimensões oficiais dos moleques da rua.
Lembrei de minha infância. De quando pintávamos a rua com as cores de nossos times.
Cores subtraídas dos estojos de nossas professoras.
Algumas, generosas, enternecidas por nossos pedidos, guardava-os, com um carinho maternal. Outras não. Obrigávamos a vasculhar estojos e latões de lixo.
Mas, o objetivo era maior.
Eram arenas incríveis, que em época de Copa e Brasileirões, tornavam-se verdadeiras sedes futebolísticas.
Eram campos medidos "a pé". Gols de tijolos que geravam polêmicas.
Levávamos horas  no preparo da arena.
A bola?
Clássica "Dente-de-Leite", colada com chiclete. Toda desenhada.
Eram memoráveis as partidas de fim de tarde.
Por alguns segundos tive meus dez anos de idade de volta.
Contemplei atentamente aquele gol solitário, margeado por uma rua estreita.
Não era qualquer rua.
Não para mim. Não para o menino que sonha.




segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Dia pós-Corinthians


25 de setembro de 2017, após um São Paulo 1 x 1 Corinthians

Tão certa quanto a Quarta-feira de Cinzas fechando o Carnaval, é a Segunda-feira pós-Corinthians.
É tempestade em terreno arrasado.
Não tem acordo.
É reclamação de tudo quanto é tipo. Daquelas de ressuscitar defunto.
E todos estão certos.
Isso é evidente, não há torcedor errado, há apenas os que descordam.
Mas esses são rapidamente ignorados.
Tudo isso, devido a uma especificidade no futebol. Do lado de fora das linhas do campo, todo mundo tem opinião, e esse é o problema.
O problema do treinador e do árbitro.
Todos estão de olho em um culpado.
Quando o treinador tem moral, só um lado sofre.
Na resenha do trabalho ainda pela manhã, nas redes sociais e no boteco. Não dá outra, "foi o meu treinador que mexeu errado", "o árbitro que na dúvida sempre dá pró-Corinthians".
É uma avalanche de pênaltis não marcados. Até mesmo na área adversária.
O pobre homem do apito é sempre apontado como mal intencionado.
Se apertar a mão de jogador corintiano após o jogo, é manchete de meia hora em programa esportivo.
Alguns pedem CPI.
Em replay de gols alvinegros é mais procurado do que a bola.
Todos querem saber onde o homem de preto está.
Na boca de torcedor magoado, só há hipóteses.
O "se" vira verbo.
 Aliás, não há na Língua Portuguesa palavra de maior envergadura.
- SE  o juiz tivesse marcado a falta...
- SE esse juiz não fosse comprado...
- SE tivéssemos jogado com o uniforme principal...
- SE tivesse jogado fulano...
- SE... SE... SE...
Todos tentam criar suas teorias da conspiração.
Não há resultado honesto.
Em situações extremas, elegem os possíveis redentores.
- O Campeonato está comprado,mas se continuar assim o Palmeiras pode chegar. Eu sou sãopaulino. Mas o Palmeiras é o único que tem elenco para passar o Corinthians.
Sempre surge um que diz, "O juiz não deixa".
E assim segue a resenha.
Nesta segunda teve anti pedindo falta em drible.
Alguns pediam a suspensão de um dos gandulas que devolveu a bola rápido demais.
No lance de gol corintiano, amontoaram-se entorno da televisão procurando um lance que tenha originado por favorecimento.
Por horas a fio. Conferem a tabela.
Fazem cálculos. Juntos.
Um misto de esperança e desespero.
Todos, flamenguistas, palmeirenses, sãopaulinos, ateus, cristãos e muçulmanos.
É nesse momento que percebemos que no mundo só há duas torcidas.
A corintiana e os anti.
Estava chato sair de casa.
No ônibus.
Na escola.
Em todos os lugares.
É uma devoção que nem o próprio corintiano tem.



domingo, 20 de agosto de 2017

Cutucada no oco


Famosa dedada em Cavani em jogo Chile e Uruguai em 2015 pela Copa América.

A área é uma festa. Um pega-pega sem controle.
É jogador que corre de camisa grudada. De  mãozinha dada.
Um abraça-abraça.
Tem o sombra que se mistura em meio as paredes de marcação e procura espaço. Nestes metros quadrados habita o folclórico gato. O tipo de jogador chato, que se esfrega. Vive deitando nos braços dos zagueiros. Com beque brucutu até desfalece. Se esfrega. Roça. Seu corpo inteiro entrega as intenções.
 Quando apertado, grita e se joga.
Deste tipo,ninguém gosta. Marcador que se presa aceita cotovelada na corrida. Empurrão no salto e até cama de gato, mas roçada não. Isso é ofensivo.
Na área todo mundo corre juntinho. Parece até nado sincronizado. Pula daqui. Que pulo dali.
É um tal de tapa na orelha e cotovelo no peito que nunca se viu.
Parece uma zona franca. Tudo pode abaixo da linha da bola.
E nesse vai e vem, o gato se esfrega. Grita. Rola na dividida com o beque.
E reclama.
Como reclama!
Numa dessas idas e vindas à área, em um jogo pegado. Dos bons, daqueles que marcador é rei. Percebi algo inusitado.
Em meio a trombadas e cotoveladas a procura da bola, havia um ser atônito. De olhos esbugalhados. Parecia congelado, não dizia nada. Sequer piscava.
Parado. Viu toda a jogada se desdobrar. 
A bola, como que por crueldade  passou-lhe do lado.
Sequer esboçou  reação.
Quando voltou a si, constrangido pediu para sair.
Era lesão?
Cansaço?
Sem respostas apenas saiu.
Estava bem no jogo.
Mas saiu.
Saiu à revelia.
Da torcida que não compreendia. Achava mascaração.
Do treinador que esbravejava impotente à vontade do atleta.
Saiu.
Saiu do campo o jogador olho no olho. Um driblador chato.
Apenas saiu.
Ainda atônito, trocou de roupa. E disse que não voltaria mais.
Cabisbaixo aceitava a situação.
Ninguém entendia o acontecido.
Ninguém. 
Até olhar para o lado do campo e observar o seu marcador cheirando o dedo e dizendo em alto e bom som:
- Poxa comeu o que hoje?



segunda-feira, 19 de junho de 2017

O buraco


Fonte: http://abolaquepariu.com.br/2016/11/futebol-o-brasil-importou-e-transformou-em-arte/ 




O buraco é algo abstrato.
Ser permanente na cabeça de gênios.
Não pertence a indivíduos comuns.
Por ser abstrato só é percebido como consciência.
O buraco é algo presente e constante em uma partida de futebol.
É tão constate que deveria ser tema de debates da Física e da Filosofia, e não apenas do Esporte.
A origem do buraco no futebol está no drible, diriam os físicos e filósofos mais aplicados.
Na troca rápida de movimento.
No conhecimento do peso e da aceleração.
No chute parabolar.
No tapa por elevação.
No toque sem peso.
Chegariam a conclusão que o buraco é a própria consciência do jogo.
Nós operários dos campos só enxergamos aquilo que nos está dado pela visão.
O gênio não.
Entre dois beques corpulentos, ele vê o vazio.
No movimento do goleiro, pensa em velocidade e força.
Em uma paralela, enxerga o ponto futuro.
Criam dezenas de possibilidades com um único olhar para a meta.
O campo para esse tipo de jogador é uma grande forma ovalada, repleta de possibilidades.
Estão em todos os espaços, gostam da bola.
Entre eles, a bola e o adversário, existe um vazio a ser preenchido.
Deslocam-se matematicamente pelo campo. Em um movimento elíptico, recriando dimensões, abstraindo o espaço, sintetizando tal como os poetas.
Não há zagueiro caneludo e nem volante trombador para esses criadores de espaço.
A qualquer momento na partida inverterão a ordem do movimento.
A qualquer momento na partida desafiaram o óbvio.
A qualquer momento na partida encherão nossos olhos com a plasticidade de seus movimentos.
O buraco no futebol, como diria meu avô, "nasce na malícia".







sábado, 17 de junho de 2017

Porque mudou o perfume?




Se tem uma espécie que conhece  até o perfume do adversário, esse é o volante.
Caçador do meio campo, é o chato. Joga colado. Baforando na nuca do penúltimo da linha adversária.
Corre, pula e rola.
Volta e meia retorna com um pedaço do adversário nas travas.
Volante bom faz cara feia, ou já nasce com ela pronta.
Esse papo de jornalista de volante moderno, isso na várzea?!
Não existe.
O torcedor de alambrado gosta do cara que anda sujo. O trombador.
Cada carrinho é um gol. Uma agitação geral na turma da cerveja quente.
Em época de redes sociais, atacante faz propaganda do figura:
"Os mano não tem dó, racha carrinho até em roda de bobo".
"Trombei com o cara e fiquei rodando o resto do jogo".
"O pior é o jacaré, quando fecha boca a canela trinca".
"Fiquei cinco dias de cama depois de um de seus botes".
É pânico geral.
Tem atacante "ousadia e alegria" que quando vê a figura aquecer do outro lado, inventa estiramento. Em alguns casos, até a morte da mãe.
Quem tem juízo tem medo.
Já vi atacante mudar de posição no campo.
Bastou uma conversa de pé orelha. Um tapinha na mãe.
E está lá, o destemido trabalhando de cabeça de área.
O bom volante é o cartão de visita da defesa.
Zaga de volante brucutu, tem beque homicida.
Todo time tem seus esquentadinhos. Xingam, intimam o adversário. Sempre estão dispostos a ir para o confronto.
Mas o volante não.
Calmo.
Até quando o corpo a frente se contorce.
Sempre calmo.
Bate e oferece a mão para o adversário.
- Levanta que foi de leve. Nem cheguei duro.
E o máximo do cinismo:
- Escorreguei professor. O campo está molhado.
O amigo leitor, se for amante do futebol, já deve ter presenciado conversas entre volantes e zagueiros. São monossilábicos, falam por códigos. Geralmente, precisos na ação:
-"Mata".
-"Dobra comigo e racha".
- "Morreu ele. Morreu."
- "Chega comendo, sem perdão".
-"Se der dois toques na bola é vala".
E assim se estende esse diálogo setorial.
E quando cola, chega e pergunta:
- Mudou o perfume?
Espantado, o pobre diabo levanta o braço e de migué sai de campo.




domingo, 4 de junho de 2017

Chuteiras velhas



Chuteiras velhas são incríveis. Trazem no corpo histórias de batalhas Homéricas, lances que somente a memória dos presentes podem desmentir. Chuteiras velhas tem sangue. São anatomicamente deformadas.
Usadas.
As chuteiras velhas conhecem os atalhos do campo.
Chuteiras velhas são velhas.
Cada risco no couro.
O bico reforçado com a costura.
Os buracos abertos em suas laterais.
Tudo. Tudo conta histórias.
No plural, não no singular.
Histórias que se superam em detalhes. Detalhes que sequer são lembrados pelas marcas no corpo.
Chuteiras velhas são como seus donos. Solitários contadores de histórias que envelhecem em suas paixões.
Se o campo diz sobre seus atores, o que dirá os apetrechos que os compõem?
É o branco da trave em uma das laterais.
É a grama que teimosamente está presa ao bico.
O calcanhar torto pela pisada.
A lama nas travas.
Tudo narra.
Mas narrar é ver o tempo passar. Melhor, narramos no tempo.
Chuteiras velhas são como fotografias desbotadas, falam sobre borrões. Ilustres e desconhecidos. Apenas borrões.
São estranhas aos que as desconhecem, mas estão lá.
Tortas e a postos, para se inundarem de vida em mais uma gigantesca disputa de várzea.
Mais uma disputa.
Mais uma história.
O tempo sempre há de vencer as chuteiras velhas. Que do tempo, só podem narrar.