sexta-feira, 22 de junho de 2018

Patriotismo sazonal

fonte da imagem: http://g1.globo.com/turismo-e-viagem/fotos/2014/06/leitores-enviam-fotos-de-ruas-enfeitadas-para-copa.html


Quarta-feira em dia de jogo de seleção. As ruas estavam vazias. Ou praticamente vazias. Transitavam pelas vias alguns poucos desinformados, e outros, esses que deliberadamente, como réprobos da pátria, ignoravam os heróis nacionais que em questão de poucas horas entrariam em campo.
O que se multiplicava pelas esquinas eram vendedores de camisetas, bandeiras e todo o tipo de souvenir patriótico. Senti-me um traidor. Mas continuei minha marcha.
As fachadas estavam decoradas. Sinceramente, não muitas. Reflexo da péssima estreia contra a Suíça.
 Em um colégio ouvia-se o aquece de alunos na organização do grito de possíveis gols canarinhos. Resisti a tudo. E rumei para o trabalho. Ao estacionar, uma senhora questionou-me sobre sua bandeira:
- Nossa bandeira está visível.
Disse-lhe que sim.
Continuou:
- Mas está bonita? O que acha?
Ri, e disse-lhe que estava bonita. Bonita e visível.
Perguntava-me como se quisesse confirmar seu voto patriótico.
Fez-me lembrar de minha infância. De minha primeira Copa.
Na escola, pintávamos bandeirinhas em cópias mimeografadas ainda cheirando a álcool.  Não eram copias qualquer. Havia dizeres. Dizeres de apoio. Frases otimistas que segundo nossas mentoras, levariam energia positiva aos nossos craques, que em seu heroísmo homérico confrontariam em campos estrangeiros, inimigos vis.
Lembro-me das bandeiras pintadas com guache nos muros da escola. Dos jogos de figurinhas nos intervalos. Os gizes coloridos redecoravam o piso do pátio. Discutíamos avidamente os craques das rodadas. As jogadas. Sempre observados por olhares curiosos. Pareciam aprender sobre a magia da bola, através da conversa de meninos. Meninos. Copa era assunto sério.
Era tamanha a euforia, que as zeladoras sempre carrancudas com nossos deslizes, sequer manifestavam. Ao contrário, assistiam às partidas no pátio, aplaudiam-nos. Até torciam.  Arriscavam em comentários futebolísticos. Algumas, sensibilizadas pelo momento, trazia-nos figurinhas.
Em época de Copa, éramos comandados por senhoras. O hino nacional era executado diariamente. E, em jogos da seleção, cantado a pulmões cheios. Cheios de ar e esperança. Sentia-me perfilado ao lado de Sócrates, Zico, Edinho e companhia. Como se tivesse a bola abaixo dos pés.
Era um patriotismo ingênuo. De saias. Cantado e pintado. De professoras, em sua maioria, senhoras, que nos educavam em um civismo maternal.
Era um patriotismo cíclico.  Que como tal, terminara com as cobranças de pênaltis. Encerrado na parede francesa.
Adeus às bandeiras.
As fachadas voltaram a sua frieza.
E nós, voltávamos à rotina, na expectativa de que dali há quatro anos tudo fosse diferente.
E veio 1990.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Trabalho feito

fonte da imagem: http://novaspensatas.blogspot.com/

Deu ruim?
É trabalho feito.
Se o time está em crise, algo de errado está acontecendo em planos sobrenaturais.
Recentemente saíram com a história do uniforme macumbado.Isso mesmo, zicado, já veio com mandinga.
Boleiro é muito supersticioso. Basta dar-lhe motivo, e as histórias fluem.
A única certeza era que a zica alojou. Parecia ter incrustado no tecido. E de lá não saia.
Após a hipótese, surgiram as mais diversas justificativas para derrotas inexplicáveis.
Só não apontaram o óbvio.
Isso era evidente. A quem interessa explicar que o time não anda bem?
Melhor que a culpa seja do Diabo, ou de seus associados.
Caíram na besteira de fazerem tal apontamento.
Já apareceu no grupo aquele que dizia ser obra do Coisa Ruim.
Em meio as discussões acaloradas, teve membro da diretoria falando em queimar o pobre.
Mas não sem antes dar-lhe um banho de sal para purificar.
Indicaram pastores, rezadeiras e todo sujeito encantado capaz de tirar encosto.
Mas faltou consenso.
O whatsapp ferveu.
De um lado os descompromissados, brincalhões que não entendem a dimensão da crise instaurada no grupo. Afinal, tratava-se de um jejum de mais de dez partidas.
Do outro lado, a diretoria e os atletas compenetrados em romper com o olho ruim.
A bagunça estava formada.
Era jogador desesperado em meio a engraçadinhos que só queriam aprontar.
Um reclamava de cá, e postava até oração.
Outros, enchiam a tela de emojis e volta e meia um vídeo de sacanagem.
Em meio a tudo isso aparecia um mais informado avisando do jogo da Seleção.
Em reuniões assim tem a turma da visualização.
Esses, só observavam preferiram se abster.
Tudo parecia certo.
O Trabalho iria acontecer.
O pobre uniforme pagaria sozinho as caneladas na bola.
Sofreria o flagelo dos mártires.
Deu ruim.
Queima.
Reunião encerrada.
Até a próxima postagem.

"Jogo confirmado. Confirma ai quem vai"
...
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...
...
...
...
...
...
...
...
Um ou dois confirmaram.
E a culpa é do uniforme.




domingo, 3 de junho de 2018

Doutorzinho



Depois da água, somente o doutorzinho.
É infalível.
Indicado por especialistas para qualquer problema de origem futebolística.
Chegou na farmácia, é coisa certa.
Até parece que esses estabelecimentos tem um especialista em problemas da boleiragem.
Boleiro que se preza tem o seu doutorzinho na bolsa.
A qualidade deste produto é medida no cheiro. Quanto mais forte o odor da cânfora, maior as suas propriedades medicinais.
O que não falta em vestiários são histórias, e o cheiro de cânfora.
Para ser específico, histórias de lesões. É ombro fraturado, tornozelo torcido, estiramento, tendinite, e todas as mazelas que um corpo pode sofrer.
O velho Tulipa, que o diga. Centroavante dos bons, do tipo matador. Trombava com tudo quanto é tipo de zagueiro. Principalmente os que não rezavam para dormir. Desses parecia gostar mais.
Era uma verdadeira Enciclopédia Clínica Futebolística.
Franzino e de tipo cavernoso.
Caminhava com suas pernas compridas e secas, com as meias arreadas, como se quisesse provocar os marcadores. Tinha o rosto coberto de salientes "crateras", uma barba totalmente falha que se desenhava por esses relevos, e as marcas dos pontos.
Havia domingos que aparecia com um dos olhos roxos ou inchados.
- O que aconteceu rapaz?
Com o cigarro ainda na boca respondia com sua voz sempre serena, parecendo minimizar o feito.
- Isso aqui? Foi nada não. Foi no jogo de quarta e um caminhão sem freio que veio pra cima de mim. Mas nós classificamos.
Era só isso que importava.
A classificação.
Era um boleiro de espírito.
Tinha uma tolerância a dor invejável.
Em todo campo que íamos, apanhava. E como apanhava.
Centroavante habilidoso apanha muito.
E são esses tipos que traziam a resenha para dentro de vestiário.
Moleque novo. Ou ficava admirado ou tremia.
Comecei no futebol vendo-o se lavar de doutorzinho nas tardes de domingo.
Quando perguntava para que servia aquilo, dizia que era para se prevenir das pancadas.
Sempre acreditei que era um tipo de anestésico.
Teve época de levar garrafadas para beira do campo.
Era um Xamã artilheiro.
Com ele aprendi que quanto mais velho o boleiro, maior o número de lesões e principalmente, das histórias das lesões que tem para contar.  Em suas mochilas, encontra-se de tudo, ataduras, pomadas, adesivos e até telefone de pai de santo.
É tanta história que assusta.
Tem jogador que impressionado, aplica o santo remédio antes mesmo de entrar em campo. Até aqueles que não tem problema algum. Esses, aplicam para se prevenir.
Recentemente descobri que se cheira a pomada. Isso mesmo. Antes de entrar em campo, deve-se cheirar um pouco. Para "abrir os pulmões".
Não emprestamos chuteiras.
Mas caiu no chão e gritou.
Alguém já pergunta:
- Tem doutorzinho ai?


Cativa no campo da Santa Cruz



Jogo em domingo de apagão, União Santa Cruz 1 x 4 Saul Elkind, em 27 de maio de 2018.

sábado, 28 de abril de 2018

O primeiro gol


fonte: http://www.ibom.com.br/exibeNoticias.php?id=183 (Fabiano Oliveira)

Seus olhos sempre brilhantes, naquele momento abriam-se na intensidade do feito.
Lentamente expandiram-se no rosto como que espantados.
Sua boca estava entrecerrada com seus próprios dentes que apreensivos agrediam-lhe a carne.
Foram longos dois ou três segundos.
Entre o momento em que a bola dividida sobrou-lhe na entrada da área e a tomada de decisão.
Decisão certeira.
De treino.
Tal como repetido, errado e acertado tantas vezes.
Pisar e chutar.
Pisou. Sapateou na troca de pernas.
E chutou.
Chutou no cantinho.
O goleiro até foi. Esticou o braço. Os olhos. Os dedos e a alma.
Mas não alcançou.
Foi porque tem que ir e pronto.
A bola bateu caprichosamente no pé da trave.
Para o desespero do goleiro, entrou vagarosa.
Despretensiosa.
Quanto ao jovem artilheiro?
Esse, sem saber o que fazer, apenas observou.
Com os olhos arregalados e um sorriso surpreso no rosto.
O jogo já estava ganho.
Sequer tinha noção disso.
Apenas contemplou por segundos o feito.
E quando a bola determinou seu trajeto. Euforicamente se segurou.
Mesmo com os gritos de seu nome que vinham da arquibancada.
Virou-se para seu próprio campo.
Quando deu por si, já o abraçavam.
Foi uma experiência única. Foram seus primeiros abraços em equipe. Naquele momento, pelo menos naquele momento, estava inserido no grupo.
Pelo menos naquele momento, não era o menino lento e desajeitado, deixado no banco de reservas, aos caprichos do esquecimento do treinador.
Por alguns segundos todos o viram.










quarta-feira, 4 de abril de 2018

Márcio, você viu

Rodrigo, o zagueiro da DEDADA deixa a Ponte Preta

Os gritos eram fortes
"Márcio você  viu. Márcio, você viu"
O jovem estava transfigurado.
Contido inicialmente por dois, depois três jogadores. E todos aqueles dispostos a segura-lo. Esbaforindo palavrões, lutava contra braços e corpos que se colocavam a sua frente.
Queria a alma de nosso lateral, que impassível, apenas levantava o braço em sinal de que não fez nada.
Uma atitude incrível de quem acabara de receber um chute pelas costas.
Era um chora daqui, que cobro dali.
todos pendurados no Márcio.
"Vai ter que ter punição".
"Como assim?"
O que deu nesse moleque, que continuava a gritar em direção ao árbitro.
"Márcio, você viu".
"Você viu sim".
E Márcio, esse era o nome do árbitro. Um negro corpulento, alto, de uma calma invejável. Com o semblante dos justos, procurava no bolso esquerdo de sua camisa o cartão. Faria justiça.
Tamanha covardia não poderia deixar de ser penalizada.
Por um momento, tomou o vermelho em mãos.
Mas, antes de levantá-lo, como que assaltado por uma dúvida.
Eis que levanta o azul.
Agora, éramos nós os indignados.
"Poxa Márcio, foi agressão. Você viu."
"No futebol pode tudo. Mas chutar assim, já é covardia. Azul está barato"
Impassível, com um toco de lápis em sua mão direita apenas anotava.
Sequer nos deu atenção. E para piorar, disse:
"Volta em cinco. Faltam seis. volta em cinco".
Na saída de campo, o jovem que passara por mim, repetia,
"Um minuto, ah! Eu pego ele".
Sequer sentou. Amparado por amigos tentava justificar sua atitude.
Não se conteve.
Estava em cólera.
Xingava à beira do campo. Incrédulo e revoltado com a pena atribuída a seu destempero. E repetia para si
"Eu pego ele, me põe que eu pego ele".
Em um plano que seria o revide mais rápido da história do futebol. Passaram mil estratégias. Todas fadadas ao peso do tempo.
E a vítima?
Afastado do centro da confusão, apenas ria enquanto era fitado por aquele olhar sedento de vingança.
O jovem não se conteve.
Aquilo era demais.
Humilhante.
De fora do campo, o garoto gritou.
Gritou com fúria.
Com os pulmões cheios.
Como macho ofendido.
Indignado pela cegueira de todos.
"ELE ENFIOU O DEDO NO MEU CU. NO MEU CU, OUVIU?"

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Goleiro bom... Vê Lobisomem

Lev Yashin, goleiro russo, o maior de sua posição, de acordo com a grande imprensa futebolística. Jogou as copas de 1958,1962, 1966 e 1970. Seus números são inimagináveis.
Fonte: https://www.rbth.com/sport/2014/04/21/the_modest_man_in_black_why_lev_yashin_never_lost_his_humility_36023.html 

Você deve estar se perguntando o que a criatura peluda, o mensageiro de Satanás tem haver com futebol. Ou melhor, com a qualidade do goleiro.
Mas goleiro bom, vê Lobisomem.
Parece que o encarnado escolhe aqueles que revelará sua figura. Geralmente sujeitos pacatos, que de tão calmos, intimidam.
Não se assuste. A sua surpresa não foi muito diferente da que tivemos naquele domingo.
Era um domingo comum, como de hábito, o vestiário estava agitado. Cheio de resenha tomada por uma atmosfera de cânfora. Tamanha a bagunça que até música tinha.
Em raros momentos de seriedade, vinham as prévias sobre o adversário. Foi aí, que o inesperado aconteceu.
Estava lá.
Sentado em uma cadeira na ante-sala do vestiário.
Impassível.
O goleiro.
Ele e sua visagem.
O silencioso falou.
E o som de sua voz, silenciou a todos.
Até os marrentos pararam de graça. Tinha sujeito, que perplexo, ouvia-o com as calças ainda nas mãos.
Todos foram pegos de surpresa, pois nosso Yashin nunca está presente no vestiário. Assustamos, é um sujeito calado. Daqueles que chega em campo concentrado." Não dá ideia".
Não emite som até o apito.
Sua preparação para a partida é praticamente um ritual.
Aquece e treina sozinho.
Finta seco os adversários. Em silêncio.
Mede a área. Passo a passo.
Sequer frequentava o vestiário. E isso, deixou todos apreensivos.
Seus hábitos diferem do todo nós. Enquanto em meio às resenhas, enrolamos para entrar em campo, basta apontar na escadaria e lá está ele, debaixo das traves. Se movimentando de um lado para o outro.
Todo de preto.
Sinistra a imagem.
Teve adversário que em meio as tentativas frustradas de gol, desanimado chegou a mencionar que o homem tem mais de dois braços e muito, mas muito mais de três metros de altura.
Não duvido. Pois, já cheguei acreditar que era mandinga.
Coisa de rezadeira.
Uniforme encantado.
O homem é uma parede.
Basta o apito e o vulto negro se espalha pela área.
Sai do silêncio absoluto para um conjunto de xingamentos e reclamações.
É uma parede.
Daquelas bem feitas. Que não cedem a qualquer vendaval.
Uma parede preta, um Lev Yashin.
Em meio a tantas manias.
Nesse dia falou.
Estranho.
Justo ele puxou o assunto.
Justo ele.
Foi um silêncio total.
Arregalava os olhos e bufava, imitando o encarnado.
"- Ontem a noite eu vi um Lobisomem. E ele bufou para mim."
Arregalava os olhos e bufava.
Imitava os passos. E repetia:
"- Ontem a noite eu vi um Lobisomem. E ele bufou para mim."
Nem o mais abusado dos jogadores, ousou discordar.
Quem estava descalço desceu as pressas para o campo, as chuteira?
Calçaram do jeito que deu.
Não tocamos no assunto. Só jogamos.


sábado, 27 de janeiro de 2018

O gol

fonte: https://www.soumeier.com.br/noticias/futebol-de-rua-9-machucados-que-quem-jogou-ja-teve/

Lá estava ele, solitário encostado no muro.
Montado como os grandes. Em ferro. De boa soldagem. Solitário.
Estava atrasado, mas parei.
Não estava jogado, ou guardado para o momento de uma partida digna de sua presença.
Estava posto.
Sobre a calçada.
Mas posto. Devidamente, montado, com marcação e tudo que lhe diz respeito.
A sua frente, abaixo do meio fio, havia uma área marcada em branco.
Em tinta óleo, milimetricamente marcada. Nas dimensões oficiais dos moleques da rua.
Lembrei de minha infância. De quando pintávamos a rua com as cores de nossos times.
Cores subtraídas dos estojos de nossas professoras.
Algumas, generosas, enternecidas por nossos pedidos, guardava-os, com um carinho maternal. Outras não. Obrigávamos a vasculhar estojos e latões de lixo.
Mas, o objetivo era maior.
Eram arenas incríveis, que em época de Copa e Brasileirões, tornavam-se verdadeiras sedes futebolísticas.
Eram campos medidos "a pé". Gols de tijolos que geravam polêmicas.
Levávamos horas  no preparo da arena.
A bola?
Clássica "Dente-de-Leite", colada com chiclete. Toda desenhada.
Eram memoráveis as partidas de fim de tarde.
Por alguns segundos tive meus dez anos de idade de volta.
Contemplei atentamente aquele gol solitário, margeado por uma rua estreita.
Não era qualquer rua.
Não para mim. Não para o menino que sonha.




segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Dia pós-Corinthians


25 de setembro de 2017, após um São Paulo 1 x 1 Corinthians

Tão certa quanto a Quarta-feira de Cinzas fechando o Carnaval, é a Segunda-feira pós-Corinthians.
É tempestade em terreno arrasado.
Não tem acordo.
É reclamação de tudo quanto é tipo. Daquelas de ressuscitar defunto.
E todos estão certos.
Isso é evidente, não há torcedor errado, há apenas os que descordam.
Mas esses são rapidamente ignorados.
Tudo isso, devido a uma especificidade no futebol. Do lado de fora das linhas do campo, todo mundo tem opinião, e esse é o problema.
O problema do treinador e do árbitro.
Todos estão de olho em um culpado.
Quando o treinador tem moral, só um lado sofre.
Na resenha do trabalho ainda pela manhã, nas redes sociais e no boteco. Não dá outra, "foi o meu treinador que mexeu errado", "o árbitro que na dúvida sempre dá pró-Corinthians".
É uma avalanche de pênaltis não marcados. Até mesmo na área adversária.
O pobre homem do apito é sempre apontado como mal intencionado.
Se apertar a mão de jogador corintiano após o jogo, é manchete de meia hora em programa esportivo.
Alguns pedem CPI.
Em replay de gols alvinegros é mais procurado do que a bola.
Todos querem saber onde o homem de preto está.
Na boca de torcedor magoado, só há hipóteses.
O "se" vira verbo.
 Aliás, não há na Língua Portuguesa palavra de maior envergadura.
- SE  o juiz tivesse marcado a falta...
- SE esse juiz não fosse comprado...
- SE tivéssemos jogado com o uniforme principal...
- SE tivesse jogado fulano...
- SE... SE... SE...
Todos tentam criar suas teorias da conspiração.
Não há resultado honesto.
Em situações extremas, elegem os possíveis redentores.
- O Campeonato está comprado,mas se continuar assim o Palmeiras pode chegar. Eu sou sãopaulino. Mas o Palmeiras é o único que tem elenco para passar o Corinthians.
Sempre surge um que diz, "O juiz não deixa".
E assim segue a resenha.
Nesta segunda teve anti pedindo falta em drible.
Alguns pediam a suspensão de um dos gandulas que devolveu a bola rápido demais.
No lance de gol corintiano, amontoaram-se entorno da televisão procurando um lance que tenha originado por favorecimento.
Por horas a fio. Conferem a tabela.
Fazem cálculos. Juntos.
Um misto de esperança e desespero.
Todos, flamenguistas, palmeirenses, sãopaulinos, ateus, cristãos e muçulmanos.
É nesse momento que percebemos que no mundo só há duas torcidas.
A corintiana e os anti.
Estava chato sair de casa.
No ônibus.
Na escola.
Em todos os lugares.
É uma devoção que nem o próprio corintiano tem.



domingo, 20 de agosto de 2017

Cutucada no oco


Famosa dedada em Cavani em jogo Chile e Uruguai em 2015 pela Copa América.

A área é uma festa. Um pega-pega sem controle.
É jogador que corre de camisa grudada. De  mãozinha dada.
Um abraça-abraça.
Tem o sombra que se mistura em meio as paredes de marcação e procura espaço. Nestes metros quadrados habita o folclórico gato. O tipo de jogador chato, que se esfrega. Vive deitando nos braços dos zagueiros. Com beque brucutu até desfalece. Se esfrega. Roça. Seu corpo inteiro entrega as intenções.
 Quando apertado, grita e se joga.
Deste tipo,ninguém gosta. Marcador que se presa aceita cotovelada na corrida. Empurrão no salto e até cama de gato, mas roçada não. Isso é ofensivo.
Na área todo mundo corre juntinho. Parece até nado sincronizado. Pula daqui. Que pulo dali.
É um tal de tapa na orelha e cotovelo no peito que nunca se viu.
Parece uma zona franca. Tudo pode abaixo da linha da bola.
E nesse vai e vem, o gato se esfrega. Grita. Rola na dividida com o beque.
E reclama.
Como reclama!
Numa dessas idas e vindas à área, em um jogo pegado. Dos bons, daqueles que marcador é rei. Percebi algo inusitado.
Em meio a trombadas e cotoveladas a procura da bola, havia um ser atônito. De olhos esbugalhados. Parecia congelado, não dizia nada. Sequer piscava.
Parado. Viu toda a jogada se desdobrar. 
A bola, como que por crueldade  passou-lhe do lado.
Sequer esboçou  reação.
Quando voltou a si, constrangido pediu para sair.
Era lesão?
Cansaço?
Sem respostas apenas saiu.
Estava bem no jogo.
Mas saiu.
Saiu à revelia.
Da torcida que não compreendia. Achava mascaração.
Do treinador que esbravejava impotente à vontade do atleta.
Saiu.
Saiu do campo o jogador olho no olho. Um driblador chato.
Apenas saiu.
Ainda atônito, trocou de roupa. E disse que não voltaria mais.
Cabisbaixo aceitava a situação.
Ninguém entendia o acontecido.
Ninguém. 
Até olhar para o lado do campo e observar o seu marcador cheirando o dedo e dizendo em alto e bom som:
- Poxa comeu o que hoje?



segunda-feira, 19 de junho de 2017

O buraco


Fonte: http://abolaquepariu.com.br/2016/11/futebol-o-brasil-importou-e-transformou-em-arte/ 




O buraco é algo abstrato.
Ser permanente na cabeça de gênios.
Não pertence a indivíduos comuns.
Por ser abstrato só é percebido como consciência.
O buraco é algo presente e constante em uma partida de futebol.
É tão constate que deveria ser tema de debates da Física e da Filosofia, e não apenas do Esporte.
A origem do buraco no futebol está no drible, diriam os físicos e filósofos mais aplicados.
Na troca rápida de movimento.
No conhecimento do peso e da aceleração.
No chute parabolar.
No tapa por elevação.
No toque sem peso.
Chegariam a conclusão que o buraco é a própria consciência do jogo.
Nós operários dos campos só enxergamos aquilo que nos está dado pela visão.
O gênio não.
Entre dois beques corpulentos, ele vê o vazio.
No movimento do goleiro, pensa em velocidade e força.
Em uma paralela, enxerga o ponto futuro.
Criam dezenas de possibilidades com um único olhar para a meta.
O campo para esse tipo de jogador é uma grande forma ovalada, repleta de possibilidades.
Estão em todos os espaços, gostam da bola.
Entre eles, a bola e o adversário, existe um vazio a ser preenchido.
Deslocam-se matematicamente pelo campo. Em um movimento elíptico, recriando dimensões, abstraindo o espaço, sintetizando tal como os poetas.
Não há zagueiro caneludo e nem volante trombador para esses criadores de espaço.
A qualquer momento na partida inverterão a ordem do movimento.
A qualquer momento na partida desafiaram o óbvio.
A qualquer momento na partida encherão nossos olhos com a plasticidade de seus movimentos.
O buraco no futebol, como diria meu avô, "nasce na malícia".







sábado, 17 de junho de 2017

Porque mudou o perfume?




Se tem uma espécie que conhece  até o perfume do adversário, esse é o volante.
Caçador do meio campo, é o chato. Joga colado. Baforando na nuca do penúltimo da linha adversária.
Corre, pula e rola.
Volta e meia retorna com um pedaço do adversário nas travas.
Volante bom faz cara feia, ou já nasce com ela pronta.
Esse papo de jornalista de volante moderno, isso na várzea?!
Não existe.
O torcedor de alambrado gosta do cara que anda sujo. O trombador.
Cada carrinho é um gol. Uma agitação geral na turma da cerveja quente.
Em época de redes sociais, atacante faz propaganda do figura:
"Os mano não tem dó, racha carrinho até em roda de bobo".
"Trombei com o cara e fiquei rodando o resto do jogo".
"O pior é o jacaré, quando fecha boca a canela trinca".
"Fiquei cinco dias de cama depois de um de seus botes".
É pânico geral.
Tem atacante "ousadia e alegria" que quando vê a figura aquecer do outro lado, inventa estiramento. Em alguns casos, até a morte da mãe.
Quem tem juízo tem medo.
Já vi atacante mudar de posição no campo.
Bastou uma conversa de pé orelha. Um tapinha na mãe.
E está lá, o destemido trabalhando de cabeça de área.
O bom volante é o cartão de visita da defesa.
Zaga de volante brucutu, tem beque homicida.
Todo time tem seus esquentadinhos. Xingam, intimam o adversário. Sempre estão dispostos a ir para o confronto.
Mas o volante não.
Calmo.
Até quando o corpo a frente se contorce.
Sempre calmo.
Bate e oferece a mão para o adversário.
- Levanta que foi de leve. Nem cheguei duro.
E o máximo do cinismo:
- Escorreguei professor. O campo está molhado.
O amigo leitor, se for amante do futebol, já deve ter presenciado conversas entre volantes e zagueiros. São monossilábicos, falam por códigos. Geralmente, precisos na ação:
-"Mata".
-"Dobra comigo e racha".
- "Morreu ele. Morreu."
- "Chega comendo, sem perdão".
-"Se der dois toques na bola é vala".
E assim se estende esse diálogo setorial.
E quando cola, chega e pergunta:
- Mudou o perfume?
Espantado, o pobre diabo levanta o braço e de migué sai de campo.




domingo, 4 de junho de 2017

Chuteiras velhas



Chuteiras velhas são incríveis. Trazem no corpo histórias de batalhas Homéricas, lances que somente a memória dos presentes podem desmentir. Chuteiras velhas tem sangue. São anatomicamente deformadas.
Usadas.
As chuteiras velhas conhecem os atalhos do campo.
Chuteiras velhas são velhas.
Cada risco no couro.
O bico reforçado com a costura.
Os buracos abertos em suas laterais.
Tudo. Tudo conta histórias.
No plural, não no singular.
Histórias que se superam em detalhes. Detalhes que sequer são lembrados pelas marcas no corpo.
Chuteiras velhas são como seus donos. Solitários contadores de histórias que envelhecem em suas paixões.
Se o campo diz sobre seus atores, o que dirá os apetrechos que os compõem?
É o branco da trave em uma das laterais.
É a grama que teimosamente está presa ao bico.
O calcanhar torto pela pisada.
A lama nas travas.
Tudo narra.
Mas narrar é ver o tempo passar. Melhor, narramos no tempo.
Chuteiras velhas são como fotografias desbotadas, falam sobre borrões. Ilustres e desconhecidos. Apenas borrões.
São estranhas aos que as desconhecem, mas estão lá.
Tortas e a postos, para se inundarem de vida em mais uma gigantesca disputa de várzea.
Mais uma disputa.
Mais uma história.
O tempo sempre há de vencer as chuteiras velhas. Que do tempo, só podem narrar.

domingo, 19 de março de 2017

Camisa com urucubaca


O cara não tira a camisa nem para dormir. Vai em casamento está lá, a camisa debaixo do terno.
Em enterro, aniversário da sogra e de sobrinho, até parece garoto propaganda. Lá a está, uma segunda pele, estampada com o sorriso do indivíduo na foto.
A camisa já anda sozinha.
Se abusar dá autógrafo e se escala.
Estou vendo o momento que o cara vai pedir direitos de imagem e fotografia de churrasco no fundo do quintal.
No time, já está dando o que falar.
Mas não é a presença da camisa que incomoda o grupo.
O problema é o fato de desde quando essa adentrou nosso vestiários, o nosso craque caiu de produção.
O cara batia de letra, agora dá de calo.
Bola de chapa anda subindo.
E a velocidade? Anda de cabeça baixa e resmungando.
Chegou a afirmar que estamos agindo como a imprensa, aumentando os fatos.
Que é pura intriga.
Quem dera.
Podemos até aumentar, mas que o fato existe. Ah, esse existe.
Na resenha, caiu na roda.
Virou até verbo.
Teve membro da diretoria que preocupado, procurou pastor, padre e pai de santo com a fotografia do indivíduo e a camisa para ver se era trabalho feito.
Os atletas mais espirituosos, na oração do jogo, clamam a Deus com os pulmões inflados.
Creio que alguns, estão até colocando o seu nome nas intenções de reza.
Hoje, trocou de camisa.
Não falou o motivo. Mas trocou.
Até gol fez.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Movimento parabólico

Desolados, jogadores do Bayern não acreditavam no que tinha acabado de acontecer. Final da taça da Liga dos Campeões da UEFA de 1998-1999 entre Bayer de Munique (1) e M. United (2) no Estádio Camp Nou, Barcelona, Espanha. “Três minutos de acréscimo. Dois gols. E um título surreal.” 
Fonte: https://imortaisdofutebol.com/2013/05/23/jogos-eternos-manchester-united-2x1-bayern-munchen-1999/ 

Atônito ele observava o movimento parabólico que se formava no espaço.
Contemplava impotente a bola subir a uma altura que lhe causava alívio.
Entretanto, fora a queda que mudou a história.
Seus olhos abriram-se como se quisessem saltar para fora.
Derrapava na lona com o corpo ainda deitado.
Esticou braço.
Pernas.
Até o pensamento.
Era a expressão máxima do desespero.
Mas, pouco podia fazer.
Viu-a entrar e prender-se a rede, era como se a própria dissesse "FOI GOL E PRONTO".
Desesperado e ainda de joelhos socava o chão e maldizia a sorte.
Sentia-se sozinho, humilhado. Sem chão.
Aos trinta e quatro minutos, conseguira defender quase tudo. Conseguiram marcar quase todos.
Mas o QUASE indica que algo ficou, que algo passou.
Todos estavam praticamente dentro do gol. Mas como um ato falho, esqueceram a entrada da área.
Foi uma meia bicicleta.
Um belo movimento pendular.
Havia uma perna direita livre.
Havia um meia livre.
Havia um corpo com espaço para movimentar-se.
Entre o silêncio do chute e a explosão eufórica do gol, havia uma estrela.
E como brilha essa estrela.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Na resenha


Aí, vem o indivíduo, ensopado em suor. Senta-se com os amigos em volta da mesa. Suas chuteiras ainda estão tomadas de grama recém batidas no meio fio, grita ao atendente do bar:
- Parceiro traz um cerva pra "nóis".
O Atendente responde:
- Qual?
Sem pestanejar vem a resposta, típica de quem tem sede.
- A mais gelada.
É uma relação quase mecânica. Boleiro e botequeiro são assim.
Um depende do outro.
Se o bar for na beira do campo, o dono do estabelecimento vira patrono do time. Põe o santo do vestiário na altar. Decora a parede do estabelecimento com as formações da equipe, com direito a parede de troféus e fotografia do elenco campeão. A paixão é tanta que indivíduo garante até o "doce".
Em meio ao cheiro de urina que transborda do banheiro mal acabado, surgem os mais diversos nomes e apelidos batizados nas resenhas.
Macumba.
Zé Bagaça.
Neguinho do Chinelo.
Comedor.
Indião.
Juninho Traíra.
Banana.
Queixada.
E tantos outros nomes advindos dos trejeitos físicos deste panteão de atletas.
Mas ultimamente meu amigo, a coisa anda complicada. É nome composto daqui, no diminutivo dali. Um festival de sandalinha. Dos antigos boleiros bons de resenhas monossilábicos na escolha da bebida, surgiu um tipinho, "O PATROCÍNIO MASTER".
É o chato.
Chega no bar tomado ducha
Guarda as chuteiras em necessaire.
E pior.
Escolhe bebida pela marca.
Aí não dá.
Chega ser estranha a conversa.
- Aí parceiro, tudo bem?
O dono do bar já estranha.
Sujeito limpo, de cabelo escovado. De onde veio?
- Rola uma Paulaner Hefe-Weissbier Naturtrüb?
Sem entender nada, e com a toalha que acabara de secar o suor no ombro, o pobre atendente pergunta?
- O quê?
- Se não tiver, pode ser uma Oettinger Pils ou Dab Original Dortmunder.
Bom, pensa o o nobre atendente. Estava na beira de campo. Mesmo limpo, o rapaz estava no meio da galera do time. Só podia ser resenha.
De forma sagaz, entendeu, "está me zoando, acha que não manjo de futebol".
Nesse momento, mais que depressa, o atendente do bar respondeu:
- É um bom time, mas perdeu de novo para o Bayer.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Água Milagrosa



A cabeça do boleiro é um canteiro fértil de superstições.
Toda partida de futebol na várzea tem os curandeiros de plantão, uma verdadeira equipe de mandingueiros e primeiros-socorros.
Muitas vezes o indivíduo que descansa a bordoada é o primeiro a prestar os reparos médicos ao atleta lesionado.
São diversos rituais:
O estica a perna que passa.
A turma do "não levanta não".
O "não deixa o sangue esfriar"
"Traz o doutorzinho".
Mas há um tratamento que é regra geral. Tiro e queda.
Antes mesmo de pastores venderem copinhos por  dez, cem ou mil reais, os boleiros já haviam descoberto as maravilhas medicinais da água.
Bateu a cabeça, busca água e joga na nuca. Tiro e queda.
Torceu o joelho, joga água que alivia a dor.
Vai desmaiar? Bebe água que passa.
Quer ver desespero em beira de campo. É quando tem corpo rolando na grama, e não há uma garrafa de água por perto.
É um corre-corre.
Nego correndo pra todo quanto é lado.
Atrás de um copo salvador.
Imagina se o jogo é do lado de igreja com culto.
Rapaz, seria uma invasão das chuteiras.
Ou de forma planejada e educada.
- O pastor tem copinho milagroso ai?


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Chuteiras usadas



Lembro de meu primeiro par de chuteiras. Uma OLYMPIKUS preta,  de oito travas rosqueadas, de sola toda cravejada em pregos. O tipo do material entregava as intenções de seu antigo proprietário, o Russão. Apelido que sustentava com orgulho em seu porte dois por dois abaixo de sua vasta cabeleira vermelha. Pessoa simpática, dos campos e das rodas de samba. Amou em vida três coisas: futebol, mulheres e a boa vadiagem. Povoava as ruas da Vila Recreio com seu sorriso aberto e coração mole.
Mas no campo não.
Era conhecido por sua habilidade e "amabilidade" com os adversários.
Sempre com um belo toco ou uma agulha para se apresentar.
Dizia que isso empunha respeito.
Levava-me aos campos.
Como adorava as férias de dezembro. Sabia que neste período o acompanharia em sua rotina futebolística, que ficaria horas a fio pendurado no alambrado do campo da Vila Recreio.
Quando entrei em meu primeiro time, não deu outra.
Chamou-me de canto, e ensinou-me o "cartão de visitas". Uma aula com a seriedade que se espera dos especialistas.
Em seu coração de tio, numa euforia quase paterna, correu à dispensa da casa de meus avós. Voltou de lá com um sorriso que lhe cobria o rosto largo e com um par de chuteiras surrado pelos campos da várzea londrinense.
Seus olhos grandes estavam mareados.
Continuou a sua aula, sem sorrir. Lição a lição.
Era uma cartilha de atividades de incumbência do beque na entrada da área.
O antijogo por excelência. Do tapa na bunda ao pisão no pé. A cada ensinamento, uma baforada no cigarro, que ficava de canto de boca e a célebre frase: "entrada da área é coisa séria, passou é caixa. Então não passa".
Orgulhava-se disso.
Era uma verdadeira aula de malandragem futebolística.
Dos malandros do Buracão, da Ricardo, da Fraternidade.
A chuteira era de número quarenta e dois. Mas, pelo tamanho do laceado, duvidava-se das medidas oficiais.
Experimentei-a de imediato.
Serviu. Como serviu.
Indiferente ao tamanho. Orgulhoso a arrastava para todos os campos. Das peladas aos jogos.
Corria com os pés calçados a dois meiões, que insistiam em sambar dentro daquela forma.
Era uma persistência em equilíbrio a cada corrida.
Corri com elas em terrões. Campos alagados. De grama alta ou inexistente.
Suas travas de rosca, a medida que intimidavam os adversários, causavam-me lesões nas solas dos pés. A cada jogo, uma nova área de "sangue pisado".
Eram tempos de sonhos. Jogos entre meninos que se viam homens.
Talvez a maior referência futebolística que tive em toda minha vida, foi um mito varzeano, que há vinte anos não canta. Não samba. Não bebe, e sequer arruma encrencas dentro de campo.
Um mito que ecoa na memória. Com seu eterno sorriso aberto.









domingo, 22 de janeiro de 2017

Nada se cria na boca de crocodilo



O futebol é uma fauna, repleto de animais.
Galináceos, equinos, bovinos e répteis.
Nesta fauna o bicho mais perigoso tem perna curta, rabo de arraste e boca grande.
Esse é o tal do Crocodilo, uma racinha ardilosa. Fala pelas costas e come pelo rabo.
Falseia na parceria, e no meio da malandragem  é sujeito sem consideração.
Na boca de crocodilo nada serve, nada se cria. É raça de Exu.
Sujeito encantado que bate a amizade na língua preta.
É irmão da traíra.
Virou as costas o bicho puxa o tapete.
No futebol derruba os parceiros sentado no banco.
Tem o olho ruim que cava buraco e murcha bola.
Com essa raça todo santo é pouco.
Corra com Santo Expedito.
Com Santo  Antônio.
Bata cabeça para Orixá e mesmo assim, com esse encosto, é difícil.
Quem não é do meio não entende o porque de tanta superstição.
Entra com o pé direito.
Três pulinhos e o sinal cruz.
Olha pro céu e agradece o Senhor.
É água de santo no vestiário.
Fitinha de Nosso Senhor do Bonfim.
Promessa a Nossa Senhora Aparecida.
Vale tudo para escapar do rabo deste bicho cascudo.
No campo crocodilo tem nome, sobrenome e apelido.
Esse parceiro de Zé Pelintra lhe dá o tapa nas costas preparado o velório.
Boleiro bom tem altar em casa, carrega patuá e toma benção de santo.
Deixa uma vela branca na janela e uma vermelha no canto da casa.
Antes da partida joga farelo de pão na entrada do campo.
Quando vê alguém se coçar diante disso, corre.
E como corre.
Mordida de crocodilo arranca pedaço.