terça-feira, 26 de julho de 2016

JOACHIM LÖW: COM QUE ROUPA?



ref. 20 de jul. 2014
O sambista Noel Rosa, em 1929, compôs o arranjadíssimo samba "Com que roupa?". Era o malandro se aprumando. Tentando se reabilitar. Abrindo mão dos velhos vícios e a procura de um caminho.
Creio que os amigos leitores ao lerem o título deste texto, devam estar se perguntando o que há em comum entre Joachim Löw e esse samba do velho Noel.
Olha. Vivo de frases metafóricas. Até mesmo hiperbólicas.
Joachim Löw, assim como o velho Noel, sabem que o malandro só é malandro se tem o domínio da situação.
Durante quarenta e cinco dias, vi uma avalanche de esperança verde-amarela povoando ruas e os aparelhos de televisão.
Torcer não era mais um ato consciente, mas sim, um hit. Uma modinha de estação.
A melhor peruca. A camisa mais colorida. A pose do Fantástico.
Meu Deus.
Onde foi parar o velho e bom futebol?
Cadê a malandragem?
Tudo tão politicamente correto.
Hinos.
Censuras às vaias.
E os grandes pique-niques nas arquibancadas.
No campo.
Ah, o campo. O palco do malandro. Do futebolista por excelência.
Estava vazio.
O que via?
Cavalheiros. Homens corteses, dedurando uma falta cavada. concordando com o jornalistas moralistas.
Mas Deus é bom.
Nos deu Joachim Löw.
Isso mesmo.
Deus no auge de sua infinita bondade nos deu uma alemão que nos reapresentou à malandragem. Malandragem gritada em alemão na boca de um Thomas Müller. Em suas cavadinhas.
Um alemão que nos ensinou que malandro que é malandro, domina jogo. Toca a bola. Cai no campo. Cai não. Cava.
Enquanto isso, os cavalheiros do futebol ficam se dedurando ao árbitro.
Era uma malandragem importada, mas com a qualidade MADE IN BRASIL.
Foi uma epidemia moralista por longos quarenta e cinco dias.
De uma hora para outra todos queriam ser honestos em campo.
No futebol isso é impossível.
Qualquer um sabe disso.
Nos campos de peladas.
Nos campeonatos.
Nos amistosos.
Foi uma delicadeza geral.
Mas veio o trauma. 
A imprensa se calou. 
E a ordem natural das coisas voltaram.
Caímos em um choque de realidade.
Noel Rosa e Joachim Löw nos ensinaram uma coisa em comum. O futebol e o malandro se reinventam, só há bom futebol se este vier somado a boa malandragem.

BUSCAS FREUDIANAS



ref. 14 de set. de 2014 (um dia de luto)


Se estivesse vivo, o grande Sigmund Freud seria um ávido estudioso do futebol. As paixões decorrentes deste esporte tão misterioso e confuso, o intrigariam. E o mestre no auge de sua sabedoria diria:
É confuso por que é simples.
O pai da psicanálise se esbaldaria nas contradições geradas dentro de uma mesma partida. Dentro de um mesmo time.
As oscilações entre o êxtase e a tormenta.
O choro.
A vergonha.
A ira.
Tentaria entender os quadros mentais que se projetam em uma partida, sua estrutura. Sua lógica.
Lançaria-se a questões que tentariam explicar a perfeição e a apatia?
Perguntas minhas, que tento transferir a alguém mais competente.
Confesso a você meu caro, que mesmo me aventurando nessas leituras, não consigo respostas.
Há duas semanas, esforço-me em amadurecer uma reflexão digna da perfeição tática ocorrida na chácara da Graciosa. Na situação, ganhamos por 8 a 4. Foi um desfile de belos passes. Triangulações. A geometria do campo foi redesenhada por nossa equipe.
Retângulos.
Triângulos.
Circunferências.
A mágica matemática em plena ação.
A Matemática, é a ciência mais popular calculada e reinventada por boleiros.
Reinventamos o vento.
Isso mesmo. O vento.
Foi o que restou a nossos adversários.
Que humilhados sucumbiram.
Naquela partida havia frieza.
A frieza antagoniza com suas primas-irmãs apatia e arrogância.
Como a lenda grega de Hércules contra Hidra, todas habitam um mesmo corpo, uma mesma mente e são filhas da vaidade.
Se a frieza vem acompanhada da arrogância, não importa quantas vezes corte a cabeça desta Hidra, ele renascerá com outras duas.
A arrogância quando absorvida pela sua irmã apatia, leva o herói ao fracasso.
Dramático.
Mas assim é o futebol.
É uma tragédia, no sentido grego do termo.
O esporte das multidões.
Interfere em casamentos. Promove lutas homéricas. E frustrações abissais.
O amor intenso causa dor maior que traição ou até mesmo a morte.
E é do luto que escrevo essas linhas.
Hoje publicaria uma página em branco, tamanho meu luto.
Mas, o futebol, como diria Albert Camus, molda o homem, revela o seu caráter.
Sábias palavras, vindas de um homem que se dedicou à literatura e a posição mais solitária do campo: o goleiro.
E é dele que por justiça devo narrar a tragédia ocorrida nesta tarde.
O goleiro luta.
Luta sozinho.
Quando erra há a queda do mundo.
É gol.
Mas é uma luta travada por um homem só.
É pelos olhos do goleiro que medimos a frustração de um time.
E como o meu goleiro estava encabulado ao término da partida de hoje.
Foi o nosso melhor atleta em campo. Evitou que a humilhação virasse massacre.
Defendeu tudo que pode.
Contra um.
Contra dois.
Contra três. 
Contra quatro.
São as dores no corpo deste combatente solitário que denunciam a apatia de seus companheiros.
Foi o jogo de um goleiro contra um time.
Um jogo de um time só.
Simplesmente não jogamos, como prefiro dizer: não encaixamos.
Foi uma sapatada.
Humilhante.
Uma bela sapatada.
E voltando a Freud.
Lanço-lhe, caro doutor, uma pergunta pós morte. Para ecoar no além:
Como pode a perfeição e a mediocridade serem tão próximas?

segunda-feira, 25 de julho de 2016

GARRAFADA

25 de jul. de 2016


Milagre bom.
É milagre que cura.
É tanta lesão que nos últimos anos acendi vela até para santo de terceiro escalão.
Boleiro é assim. Diz que cura. Faz.
De mandinga a garrafada já experimentei de tudo.
Pimenta em carteira.
Patuá no bolso ou no pescoço.
Fita de  Nosso Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora Aparecida no pulso.
Fumo em músculo estirado.
Arnica então. Nem se fala.
Até água benta na reza de pastor já provei.
Uma festa de ervas e rezas.
Mas lesão é que nem erva daninha.
Brota.
Arruma o coxa. Estraga a panturrilha.
E as receitas? 
Essas só aumentam.
Assim como as rezas.
De terreiro em terreiro. A que me surpreendeu veio da beira do campo.
De uma jovem senhora solidária. Daquelas que entendem o coração do boleiro. Sabe de suas paixões e dores.
Vendo-me abatido na margem do campo.
Uniformizado, ainda calçado com as chuteiras.
Indagou-me: "É joelho"
Disse: "Não, é tornozelo".
Continuou: "Já tentou arnica"
Desanimado: "Sim".
"- Hum!
Mas sabe que é seu moço, arnica sozinha não resolve".
Antes que disse qualquer coisa a mesma continuou:
"Tá vendo aquele rapaz ali dentro do campo?  O da camisa 10.
É meu marido. 
Tava condenado por todo médico que lhe examinou.
Tinha médico que dizia: É cirurgia e muita fisioterapia para voltar a andar legal. Futebol. Já era.
Olha como ele corre.
E tava condenado.
Tiraram umas duas seringas de sangue do joelho dele.
Tava condenado.
Quem vê ele correndo.
Não acredita.
Mas óia. 
Quem curou meu marido. Primeiramente foi a nossa fé em Deus e Nossa Senhora.
Mas acima de tudo. 
Foi a garrafa".
Mais que depressa, lhe peguntei que garrafada é essa.
Falou baixinho.
"- Foi um pai de santo forte. Dos bons.
O segredo da garrafada está na erva que vinha junto com a Arnica".
Mas que erva é essa? 
A prova do milagre estava voando em campo.
Custei a acreditar que aquele homem tivesse algum tipo de lesão.
"- Erva do capeta"
Praticamente sussurrou.
Mas onde encontro?
"-Encontra não. É proibida"
Mas o que é erva do capeta.
"-  A de dar tapa na macaca.
O pai de santo perguntou quem em nossa casa fumava o cigarrinho do diabo. Fiquei até ofendida, porque lá em casa somos todos de Deus. Mas tinha o meu cunhado. 
Esse mais que depressa foi num amigo dele e trouxe um pouquinho da Erva. 
Tá lá tiro e queda". 
E joga que é uma beleza.

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quinta-feira, 21 de julho de 2016

TEMPOS DE VÁRZEA

Fonte: http://papodevarzea.blogosfera.uol.com.br/ 

ref. 28 de mar. 2015
Quando se escuta a expressão Várzea, a primeira coisa que vem à mente é o futebol pegado.
Muita malandragem.
Intimidação. 
Um futebol até feio. Mas romântico.
As lembranças são muitas. 
Desde os gramados que eram um misto de terra e "grama". Os barrancos ao lado do campo, que volta e meia algum jogador ousado era arremessado ribanceira abaixo. Os córregos sumidores de bola.
Mas o mais marcante e saudoso, era a torcida em cima da linha, marcando o ponta, juntinho. 
Em uma linha que se esforçava para ser uma reta. Marcada no cal seco.
Não era raro, ver um tapa na bola em alguma reposição de lateral. Os mais ousados se arriscavam em uma chinela.
Aliás, quantos chinelos no campo.
Os elogios?
Ah, os elogios, como esses eram criativos.
Desde os mais simples, "você não vai sair vivo daqui não", até os fantasiosos "aqui primo tudo é família, mexeu, morreu".
As "Marias Alambrados" xingando incessantemente.
Os tiozinhos cornetas, reclamando da falta de qualidade do futebol atual.
Isso sim era paixão.
Em Londrina o futebol ficou muito chato. O folclórico Amadorzão, hoje está com uma estrutura que beira a um semi-profissionalismo. O Ruralzão, campeonato dos bundas sujas, pés pesados e brutos, virou uma sucursal de categorias de base. 
O Interbairros?
Esse morreu.
Para os boleiros só restam os clubes.
Um futebol sandalinha, que adocica machos.
O boleiro virou um chato.
Não bate. E odeia apanhar.
Faltam braços esticados.
Camisas puxadas.
Falta sangue.
O futebol está muito limpo.
Cadê a Várzea?
Simbolicamente morreu.
Morreu com o campo do Sebastião de Mello.
O glorioso campo do Mello, como era conhecido.
Por onde passaram todos os boleiros da Zona Norte.
Pelo menos os da minha geração.
Hoje tive um pequeno lampejo desse futebol que não existe mais.
Juiz mal intencionado.
Expulsando até por pensamento.
Torcida ameaçando, xingando.
E pancadaria.
Muita pancadaria em campo.
Até senti o cheiro da grama misturada ao pó da terra dos campos em que cresci.
Foi um bom jogo.
Corrido.

SARAVÁ PRETO VÉIO: PIMENTA NA CARTEIRA E BOLA NA REDE




ref. 16 de ago. 2015
Diversão de boleiro é coisa séria.
Talvez essa frase resuma o que penso eu e muitos outros boleiros da cidade.
A gente não sabe brincar.
Sangrar. Torcer joelhos e tornozelos, fazem parte de nossas brincadeiras em campo. 

Quem está de fora não entende. E nunca entenderá.
Quando perdemos, a cerveja fica mais amarga. Para ser sincero, nem desce.
Falta ânimo para a semana.
Entre o jogo perdido e o próximo, o tempo se arrasta. Vai mais de vagar.
Perdemos o sono, e com ele o bom humor.
Dia de derrota não tem piada.
E quando é time bom, o drama aumenta.
Ficamos sem saber para onde correr.
Alguns chegaram a cogitar oração.
Outros raça.
Cada um interpreta a fase com as forças que tem.
Mas insisto.

Má fase só passa com muito trabalho e bola na rede.
Quando a fase está feia, chute de bico é letra.
Carrinho é passe de mestre.
Mas é de mandinga em mandinga que vive o boleiro.
Não abro mão da pimenta.
Nem da reza forte.
Nem de algumas pegadas doídas.
Creio que todos estávamos com pimenta na carteira.
Um ou outro, creio que foi em culto no meio de semana.
O cara rezou tanto que nem xingou em campo.
Mas jogou. E como jogou!
O time jogou muito.
Bateu saudades da invencibilidade. Do time organizado em campo.
Aguerrido.
Afim de jogo. E pronto para o jogo.
Foram oito gols, poderiam ter sido doze.
Treze.
Criamos e marcamos.
Voltamos.

domingo, 10 de julho de 2016

E o frango soltou o "rabo"


10 de julho de 2016

O futebol e seus bichos. É uma festa, tem jacaré, gato, peixinho, coruja e o famoso frango.
A criatura galinácea, de todos, é a indesejada. Quando em campo, costuma fazer seu ninho na área. 
Escuta-se ao longe o seu cocoricocó.
Quando a bola passa. É pena pra todo lado. Uma correria geral.
Geralmente, essa criatura só se faz perceber no silêncio. 
Adora sair em segurança.
Ai, a coisa está feita.
Chute despretensioso e... Cococricocó.
Eis que passa o galináceo.
O pobre goleiro?
Cabisbaixo com as penas de seu "rabo" nas mãos.
Enquanto isso, a ave desmiolada salta e gira alucinadamente emaranhada na rede.
Cococricocó.
Cococricocó.
Vida de goleiro não é fácil.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

QUANDO UMA ESTRELA BRILHA

Terceiro gol do Brasil contra a Suécia, na goleada de 7 x 1 em pleno Maracanã, Copada do Mundo de 1950 (gol de Chico). Fotografia: Folhapress.


29 de junho de 2015
QUANDO UMA ESTRELA BRILHA
Há alguns meses uma estrela andava apagada, quase sem luz.
De um futebol altamente competitivo, passou a fazer jogos modestos, aceitando o papel de coadjuvante nas partidas. Ora reclamando de sua solidão em campo. Ora baixando a cabeça frente a má fase.
Um isolamento imposto. Coisa do futebol e de suas panelas.
Mas estrelas tem brilho próprio e não se apagam facilmente.
Suave em campo, é um jogador que me lembra em muito o jeito de jogar do Danilo (do meu amado Corinthians). Esconde a bola. Parece lento. Inteligente.
E acima de tudo, mortal vindo do fundo.
Talvez seja isso.
Talvez a resposta para esse período sem luz esteja no fundo.
Um fundo que por algum tempo deixamos de usar.
Então, chego a conclusão que o brilho dessa estrela não havia se apagado, mas sim neutralizado pelo esquecimento.
Neste fim de semana quis brilhar, e brilhou.
Aceso, fez dois gols.
Com a perna esquerda, sua perna ruim, Encontrou a trave. Lance que lhe tirou o sono.
Sempre silencioso, do fundo, criou,
uma,
duas,
três, uma infinita série de condições de gol.
Voltou a brilhar, a irradiar o campo.
Dizem que estrelas brilham por muito tempo.
Assim espero.

O IMARCÁVEL MARCA. COMO MARCA



23 de agosto de 2015

É um jogo de palavras, mas define o que a lógica muitas vezes não dá conta.
No futebol "marcar" é uma palava de duplo sentido. Ora ofensiva. Ora defensiva.
É um verbo conjugado durante a partida, por todos.
É tão intenso que na oração de entrada de campo, o Pai Nosso poderia até ser modificado por "(..) Pai Nosso que estais no Céu MARCAI por nós jogadores".
Não veria problema nisso.
Porém, o imarcável é algo espetacular.
É o surreal futebolístico. 
A composição dos personagens folclóricos dos gramados.
Imarcáveis são DEMÔNIOS, não nego.
Pelo menos para nós zagueiros.
Criaturas imprevisíveis, vivem do mais puro improviso. De lampejos de genialidade.
Todo imarcável deveria virar verbo.
Ser ensinado nas escolinhas de futebol.
Imaginem uma aula de conjugação do verbo Edmundo. 
O jovens zagueiros, todos ainda em sua puberdade, fazendo cara de maus e gritando:
Eu Edmundo, vou de carrinho
Tu Edmundo, irás de voadora
Ele Edmundo, dobra comigo para o cara não escapar.
Seria hilário. 
Haveriam outros verbos como Edílson Capetinha, Neymar, Messi, Zidani, Ronaldo Fenômeno entre tantos outros.
Olhando o gramado por esse ângulo, seria justo definir então, que em times de futebol existem jogadores e jogadores, como filosofava o grande Vicente Mateus. Todos são importantes em suas funções. É inegável isso. Mas o senso de justiça me obriga a dizer que há jogadores que estão jogando um pouco mais que os outros.
Volto-me a minha realidade. Aos meus campos.
Pois essas criaturas desfilam pela várzea.
Tiram sono de zagueiros.
Todos os domingos divido o campo como desses fenômenos. 
Como se não bastasse ser imarcável, nosso centroavante marca e como marca.
Não dá para brincar na sua frente.
É um atleta completo, adepto do futebol moderno.
Moderno mesmo. Do tipo de atleta que Tite e Guardiola gostariam de ter. Pois no futebol moderno é assim, a marcação começa no ataque. Não há espaço para atletas displicentes ou morosos.
Centroavante bom. 
Marca. 
Sem preguiça. Sem reclamar. Tem que marcar.
Define o jogo e ainda recompõe na saída adversária.
Assim é Marcão. 
Está com uma estrela de dar inveja ao astro rei.
Dribla para os dois lados.
É rápido e habilidoso.
Está em uma fase tão boa que se dá ao luxo de chutar ao gol de forma despretensiosa. Quase que esnobando o guarda metas adversário.
São chutes mentirosos. Cheios de efeito.
De uma leveza que dá gosto de ver.
Hoje fez cinco.
E não esgotou o repertório.
Estava modesto.
Fez gols simples.
De centroavante trombador mesmo.
Nada de bicicletas ou voleios.
Sinceramente. 
Tive pena do zagueiro adversário. Que mais baixo, ousava em querer procurar o corpo.
Falta de inteligência custa caro.
Pelo menos uns três gols de giro.
Hoje, parafraseando o já citado Vicente Mateus,
Marcão no ELETROGE F C é invendável e imprestável.
Complemento a frase dizendo, IMARCÁVEL.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

TINHA UMA CABEÇA NO MEU CAMINHO... NO MEU CAMINHO TINHA UM LOUCO


FONTE: http://www.artefiguras.com.br/blog/tag/charge/ 

20 de junho de 2016

Há jogadas que na origem são imarcáveis. Você corre para a bola simplesmente para cumprir o protocolo.
Já sabe do desfecho.
As malditas diagonais.
Essas são fatais.
Quando bem lançadas caem nas costas dos laterais.
O zagueiro neste momento perde o RG.
Sem pai e sem mãe tem o seu na área o avançado pela ponta.
O pior é quando o caminho é Drummondiano.
Ai a desgraça está feita.
Era gol feito e ponto.
O olhar do goleiro dizia isso.
Em velocidade.
Corte seco.
Para dentro.
Tudo correto. Conforme a cartilha.
Mas no caminho de Drummond.
Onde há lama.
Há uma pedra.
Com os olhos arregalados e a boca abafada pelas próprias mãos o avante apenas contemplava a cena que construíra.
O que inciara como um ato poético.
Um traçado a lápis em diagonal cruel na entrada da área.
Cara a cara com o goleiro.
Zagueiro no chão.
Um tiro seco.
Certeiro.
Ele já sentia o abraço dos companheiros.
Golaço.
Pintura.
Era o que todos diriam.
A cerveja ficaria doce no final da tarde. Mas...
Diriam.
Porque entre o chute, a bola e o gol, havia uma cabeça.
Uma cabeça (e o que dirá Drummond disso?)!
Havia a insanidade pouco antes derrubada pela lama na área.
Estava caído. Não abatido.
De olhos abertos.
O chute.
O choque.
O som.
Os olhos arregalados.
E a cabeça no chão.
Com os olhos arregalados e sem entender o que acontecia, apenas olhava.
Olhava e não entendia.
Incrédulo.
De olhos arregalados.
Fora vencido outra vez.
Diante dele.
Uma parede de loucura.
A insanidade tem número.
3.



domingo, 19 de junho de 2016

Buffon


19 de junho de 2016

Goleiro bom enche os olhos.
Essa é uma das grandes verdades do futebol.
São elegantes ao caminhar. Transpiram confiança.
Seu aquecimento destoa de todos.
Pede para ser agredido.
Nos desafia.
Com goleiro bom, passou da cabeça nem vai. O zagueiro só faz parede.
Atacante então.
Pobres atacantes.
Desesperados. Batem de qualquer lugar.
Chutam de bico. De trivela. De chapa. De peito de pé.
O som?
Sempre o mesmo.
Um suave gemido abafado pelo barulho da segurança.
Hoje improvisamos.
Jogamos de Buffon.
Não o Gianluigi.
Mas o nosso Buffon.
Garantiu todas as bolas rasteiras. Se deu ao luxo se trocar de pernas em chutes diagonais.
Jogou de líbero.
No alto?
Duas pontes.
Retardou o jogo.
Soube ganhar.
Na resenha do dia teve jogador afirmando ter encontrado um grande goleiro.
Mas o nosso Buffon é modesto. Mas vaidoso.
De cabelo milimetricamente cortado.
Não gostou do figurino.
Camisa muito grande, não desceu bem  no corpo.
O calção?
Meu Deus!
Que agressão, largo como um saco de batatas.
Sacrificou-se pela camisa.
Pelo azul que tremula na 445.
Encheu os olhos de todos.
Até dos adversários.
Há quem diga na equipe adversária, que o mesmo era profissional até recentemente:"O homi tá di corpo fechado. Num passava nem a tiro de bazuca".
Estava iluminado.
Onde pisou até grama cresceu.
Mas Buffon sonoramente gritou: "Volta Du. Volta".








segunda-feira, 14 de março de 2016

GAROTOS DO VIOLIN

Edição sobre fotografia de Caio Vilela.
Fonte: http://revistatrip.uol.com.br/trip/futebol-pe-no-chao 

As tardes escaldantes no empoeirado campinho do Conjunto. De uma adolescência que como grãos de areia escorre pelas armadilhas da memória.
Sandálias encardidas de terra e suor, um tipo de lama. Uma assinatura dos verdadeiros pés de toddy.
Todos de bermudas e camisas surradas, sentávamos a beira do gramado. Debaixo da sombra da copa de uma árvore que teimosamente crescia sobre o barranco.
Aflitos.
Todas as tardes eram de aflições.
Esperávamos por ela.
Poderia ser velha. Com gomo faltando.
Poderia até estar murcha.
Mas deveria "estar".
Sua presença mudava tudo.
Formavam-se dois times.
Em poucos minutos três, quatro e tantos outros.
Era o pessoal da Arara Azul. Da Capitão do Mato. Da Félix Chenso.
Formava-se um verdadeiro campeonato de ruas.
Tinha o pessoal do "Grilinho".
Esse, um time a parte. Não se misturavam.
Na escolha dos atletas, havia uma regra sagrada. Time bom, era time que tinha a trinca. Goleiro paredão. Zagueiro cavucador e Centroavante matador.
O resto dava um jeito.
Nesta época, quem jogava em times era estrela.
Arrisco-me a dizer, as estrelas da pelada.
Era os sem camisas contra os com camisas.
Tudo decidido no par ou impar.
Lembro-me do Tuia, Polacão, Gordinho, Neguinho, Curitiba, Cesinha, Baiano, Nezão, Sossego e tantos outros.
Jogávamos descalços.
Chuteiras eram para os domingos.
Jogávamos horas a fio.
O relógio?
Esse ficava por conta do sol.
Encontrávamos uma utilidade para o horário de Verão.
Como a poeira subia.
A grama era apenas uma tímida cobertura em uma das laterais do campo.
Hoje há muita grama no campo de minha juventude.
Há poucos garotos para vê-los jogar.
As traves continuam lá.
A esperas de garotos que como eu, sonharam, suaram e correram pela cortina de poeira do velho campo do Violin.









domingo, 28 de fevereiro de 2016

MELANCOLIA






28 de fevereiro de 2016

Melancolia, forte sensação de desencanto.
Melancolia, vontade de não existir.
O jogador de futebol tem a alma melancólica.
Essa alma melancólica se manifesta no confronto entre o passado e o presente.
Geralmente quando o último se torna um fardo.
Esse é o dilema que vivo.
Os times de futebol são como estrelas, conseguem brilhar por um tempo, e aos poucos perdem esse brilho. Há aqueles que nascem com um brilho que de tão forte, ofusca a vista.
Enche os corações.
É o apagar da luz destes o mais doloroso.
Tínhamos um time de futebol. Fantástico. Brilhante.
Lembro-me de meu ingresso no elenco. Desacreditado, vindo de um péssimo campeonato.
Havia encontrado o time de meus sonhos.
Um conjunto.
Sempre fui jogador de conjuntos.
Jogávamos por música.
Ganhávamos.
Hoje o que vejo (com pesar) é um grupo de jogadores, não um time.
Um grupo que em muitos momentos revela o descaso e a falta de prazer em estar juntos.
Há bons jogadores.
Mas não há um time.
Em meio a esse apagar do brilho, e talvez ontem a centelha final cessou, gritos de fora do campo:

"Estão brigando entre eles, aperta que entregam"

Gritos.
Entusiastas, selavam nosso triste fim.
O fim de um ciclo.
O fim do BARÇA.
O que somos hoje?
Não sei.
Não consigo ver um time em um elenco que procura culpados e não soluções.
Abatimento em campo.
Desinteresse pela partida.
Todos vimos.
O adversário percebeu.
Vi seu descaso.
Descaso de adversários que não nos conheciam.
Não sabiam da história deste time.
Não houve respeito.
Melancólico.
O fim de um ciclo. 
Em um campo pequeno. Enlamassado. À beira da estrada.
Ainda procurava entender.
Não procuro mais.
O BARÇA, apenas uma fotografia sobre minha escrivaninha.






domingo, 17 de janeiro de 2016

CHOCOLATE




17 de janeiro de 2016


O futebol e suas máximas. 

1. "O resultado não diz o que foi o jogo".

2. "Fomos nós que fizemos a partida ficar fácil".

3. "A bola não quis entrar".

4. "O maior respeito que podemos demonstrar ao adversário, é fazendo gol".

Poderia enumerar muitas. Mais eis as máximas do jogo de hoje. 
Adversário com grito de guerra e nome imponente: G-O-R-I-L-A-S. 
Marra de boleiros.
Atleta argentino em campo.
Jogador tatuado padrão FIFA.
Brinco de cá.
Cabelo de lá.
Resenha de sobra.
Mas contrariando a máxima de número um, o resultado diz o que foi o jogo.
Jogo de um time só.
Fizemos nove. Porém, perdemos outros noves.
E dá-lhe bronca de vestiário.
Como diria o grande Vicente Matheus, "(...) é em time fraco que se treina".
E na várzea jogo de quinze, não é de nove, pode ser de doze. 
E não era nem Páscoa.

ELETROGE F C 9 X 1 GORILAS FC













segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A BOLA NÃO ENTROU

"La Mano de Dios", assim que Diego Maradona definiu seu gol contra a seleção inglesa nas quartas de finais da copa do Mundo, de 1986 no México.


03 de janeiro de 2016


O futebol educa.
Uma frase curta. Mais parece jargão de jornalista do horário de almoço.
Mas reitero.
O FUTEBOL EDUCA.
Longe dos modismo padrão FIFA, os jogos de várzea se destacam pro serem "pegados".
Dotados de muita virilidade e malandragem.
É o jogo falado.
Daquele que chora primeiro.
Juiz em campo de várzea tem que ter PhD em Cênicas.
É o tapinha antes da saída da bola.
A camisa presa.
O joelho dobrado.
E os muitos: "não vai dá professô?"
Mas no futebol é assim.
Malandragem é malandragem.
Mas pilantragem não.
Em jogo duro ganha quem erra menos.
E como erramos!
Fizemos o goleiro adversário virar o cara do segundo tempo.
Erramos a saída de bola, uma única vez. Foi o necessário.
Até a sorte jogou contra.
Mas acertamos quando não haveria espaço para errar.
Primeiro tempo de poucas oportunidades.
Triangulação na área.
Dois a um para o adversário.
Bola na trave.
No zagueiro.
No centroavante.
Gollllllllllllllllllllllllllllllll.
...
...
...
Juiz convicto no centro do gramado.
Pára tudo.
"Não professor. A bola não entrou".
No esporte da malandragem, o malandro é aquele que sabe jogar o jogo.

ELETROGE F C 1 X 3 SPORT CLUB AMIGOS DO MARQUEZ








segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O INVISÍVEL


29 de agosto de 2015


No futebol existe uma figura que flutua.
Isso mesmo, não é devaneio. No futebol existe uma peça do jogo que literalmente flutua para que os demais joguem.
Esse jogador tem a incumbência de jogar por detrás do meio campo adversário. No espaço vazio, onde volante algum ousaria jogar, temeroso de deixar a costa desguarnecida.
É essencial no balanço de marcação. Nos campos é conhecido como o "dobra", o atleta que corre entre os laterais e os marcadores de meio, sempre à sobra.
Geralmente as jogadas iniciam em seus pés.
É o tradicional toca e vai.
Não é uma posição fácil de se jogar. Exige além do físico, um controle altíssimo do Ego.
Pois essa peça não joga para si. Joga para o time.
Desaparece ao abrir espaços para que outros entrem.
É o pé do rebote, da bola quebrada.
Figura indispensável.
Hoje, dia que nos reencontramos com a vitória o vi atuar como nos tempos douros.
Rápido na passagem e nos toques e preciso na marcação.
Pelo sorriso ao término da partida creio que saiu satisfeito.
Satisfeito consigo ou com a vitória. Mas satisfeito.
No dia em que o Rato assinalou três vezes, quem cadenciou o jogo foi o sempre versátil Guilherme Augusto.
ARENA VERDE 3 X 7 BARÇA
Gols: (3) Rato; (1) Dino; (2) Rogério; (1) Henrique

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ALMOÇO DE FAMÍLIA EM CASA DE ZAGUEIROS


Fonte: http://nanquim.com.br/category/cartuns/page/4/ 


12 de maio de 2014


Aqueles almoços de domingo.
Monótonos em que todos repetem as mesmas conversas. Os assuntos incansáveis e morosos que insistem em todos os anos se fazerem presentes nestas datas de encontro.
São assim as grandes datas. E o dia das mães não poderia ser diferente. A filharada se reúne em torno da matriarca. 
Em torno destes, netos e noras.
Come-se.
Bebe-se.
E as conversas?
Sempre as mesmas.
Fulano que está mais gordo.
Fulano que morreu.
O emprego novo. 
As brigas, entre outras futilidades necessárias para se manter uma família aglutinada.
Agora amigo leitor, lanço um desafio. 
Como imagina é esse tipo de reunião em casa de boleiro?
Ou melhor.
Já pensou esse tipo de reunião em casa de zagueiros? Isso mesmo, no plural, como se a posição de defensor fosse uma marca de família.
Em casa de mamãe é assim.
Somos em quatro. Dos quatro, dois jogam futebol. 
E os dois somos marcadores.
Ao contrário dos papos descontraídos de atacantes habilidosos que ficam se vangloriando com o rolinho sobre um beque cabeçudo. Ou o belo gol do final de semana. Nós discutimos estratégias.
Estratégias de marcação. 
Rodízio no campo, entre outras coisas que somente dois marcadores poderiam discutir.
Em outra crônica, escrevi que éramos coadjuvante, invisíveis no campo. Vistos somente em momentos cruciais. Ou para se consagrar ou para consagrar alguém (e isso é o nosso maior transtorno).
E somos.
No futebol de campo, o técnico nunca se refere ao zagueiro, mas sim: "a minha zaga". 
No Futebol Suíço não é diferente, toda a cobrança na zaga é coletiva. 
Pensamos o jogo diferentemente de nossos companheiros, pois corremos o jogo do adversário. É um quebra-cabeça que talvez nenhum meia ou centroavante irá entender.
Como costumo dizer aos meus parceiros (e meu irmão) de defesa: "jogamos outro jogo".
Em meio a esse universo. Os almoços em família. Lembra, no início da crônica?
Ficam minha mãe e meu pai. A primeira atônita, com as nossas narrativas. O segundo querendo entender se jogamos ou lutamos, pois nas narrativas e nos corpos, expomos orgulhosos as marcas da batalha campal. 
Cada dividida é na narrada com a intensidade de um gol.
Mas o que me levou a escrever um texto que em nada falou da partida de hoje?
Não sei.
Talvez tenha sido a forma de dizer que nós boleiros de fins de semana temos nossas famílias.
 Alguns tem a sorte de jogar com alguém da família. De poder contar as histórias juntos.
Sobre o jogo deste domingo de mães.
Foi insignificante.
O adversário GESSO CECÍLIA/VIOLIN, completo já é muito fraco, neste domingo nos enfrentou desfalcado, ai amigo:
ELETROGE F C 8 X 1 GESSO CECÍLIA/VIOLIN
E um bom almoço com a mamãe.





BOLEIROS ON LINE

Fonte: http://powersoccer.uol.com.br/ 


17 de junho de 2014



Quem diria que o bom e velho futebol acabaria dentro das redes sociais?
Destino inevitável.
Através dela, arma-se times. 
Corneteia-se. 
Combina-se jogos.Isso mesmo. Combina-se jogos. 
Dá até para fazer as selfies pós partidas e enviar para o grupo segundos depois da sacola.
Haverá um dia que isso será feito em tempo real. No momento do gol.
Imagine a cena...
O velho telefone parece que já é coisa do passado.
O futebol amador. 
Aquele, o da várzea. 
Está conectado. É uma fofoca só antes do jogo.
- Deixa recado pra fulano no "face".
- Ai mano estou sem crédito. Publiquei no grupo.
Se a gente não vai ao jogo. Compartilha Participa ou curte.
Linguagem de "facebookeiro".
Ainda na onda dos selfies, registramos os jogos e compartilhamos.
A boleiragem está mais marrenta que o normal.
Cada chute, um flash.
Ai é demais.
Minha vida é das mais complexas.
Jogo aos sábados e domingos. Uma hora antes do jogo, é só entrar no Facebook, e está lá. Todo mundo querendo notícias da partida.
O meu problema não é antes do jogo. É o pós jogo.
Tenho que me apressar para casa, pois há leitores fieis, sedentos por crônicas quase em tempo real.
Quem mandou inventar moda?
Quando jogam bem e não se veem bem retratados, as críticas são imperdoáveis.
A vaidade ofendida ainda é uma coisa difícil de se controlar no boleiro.
Assim foi esse fim de semana.
Jogamos ontem, e só hoje consegui escrever algumas linhas.
A culpa?
Ah, a culpa?
É dessa tal modernidade. O tempo ficou fluído demais.
E por falar na partida de ontem, essa também foi combinada on line.
Só falta agora estabelecer o futebol de domingo em rede.
O jogo não teve selfies.
Foi no estilo mais tradicional possível.
E o resultado que não é spam, foi:
ELETROGE F C 4 X 3 MADU MOTOS/ PARO FIKO

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OS GRANDES RONDINELLIS ESTÃO NA VÁRZEA

Fonte: http://morofilmes.com/portfolio/amadores-futebol/ 

22 de novembro de 2015

Dois personagens nasceram para bater e apanhar em um campo: o zagueiro e o centroavante.
Jogam um jogo a parte.
Aprendem lições distintas dos demais atletas.
Ainda menino, por volta dos 12 anos, quando cai na besteira de falar para meu tio que seria zagueiro. Esse todo envaidecido (pois era de seu ofício que falava) resolveu ensinar-me os seus atributos de área.
Mostrou-me sua chuteira OLYMPIKUS toda "arrebitada", com pregos no bico e trava de rosca.
Orgulhoso de seus feitos, ensinava-me a conduta de área. 
Pisar no pé do adversário para arrancar em uma disputa.
Deslocar os pobres diabos no alto.
Tapinhas na cara sempre quando necessário.
E cotovelos. Muitos cotovelos em todas as disputas acirradas.
Para ele carrinho não era exceção. Era regra no jogo. 
"Zagueiro bom rala a bunda no chão", dizia.
Cresci com essa imagem do ofício. Reforçada com a fabulosa zaga Marcio Alcântara e  João Neves, dois corpulentos beques que administravam a defesa do Londrina na primeira metade dos anos de 1990.
Lembro-me que com os dois em campo era risada garantida.
Algum atacante adversário iria comer brita. Voaria pelo gramado.
Eram implacáveis.
Isso se reproduzia nos campos da cidade.
Zagueiros carrancudos.
Fortes e cheirando a cânfora.
Alguns jogavam de meias arriadas.
Outros, pareciam verdadeiros gladiadores, com caneleiras, protetores de coxa, joelheiras e outros aparatos.
O que tinham em comum?
Sangue no olho.
Nada mais folclórico no futebol amador que a figura do zagueiro.
Zagueiro bom na várzea é ídolo. 
E torcedor varzeano não gosta do tipo bonzinho. Rapaz habilidoso.
Zagueiro bom. É padrão Rondinelli, raçudo com R maiúsculo e duplicado.
Tanto quanto um gol, o torcedor varzeano aprecia seus "deuses da raça" em campo.
Para muitos, um carrinho bem sucedido é o equivalente a um gol.
Já escutei a beira de campo que zagueiro bom não sai limpo de uma partida.
Seja com poeira do campo, seja com a lama em dias chuvosos, seja de sangue. 
Zagueiro que se presa sai sempre sujo.
É com orgulho que exibimos as lesões.
Correr com a camisa rasgada.
É um prazer indescritível.
Calções não suportam tais criaturas.
Pois como poucos sabem ampliar a extensão de seus corpos em carrinhos assustadores.
Lembro-me da torcida se levantando à beira do campo do Heimtal, toda vez que uma bola era lançada e disparava em corrida com o adversário.
Alguns mais ousados gritavam: "arremessa aqui".
Sabiam do desfecho da jogada.
Atacante conhecido, nem ia na bola.
Pois conhecia os famosos "jacarés"
É o ofício sem glórias, vivemos de destruir.
Nem entramos nas estáticas das partidas.
Mas esse final de semana foi diferente.
Zagueiro bom tem tempo de bola. 
E foi isso que aconteceu.
Enquanto todos olhavam para a bola.
Aquele que vos escreve, olhava para o vazio. Uma passarela aberta no centro da área.
O passe açucarado de Toddy, foi o suficiente para que me lançasse como um pássaro à bola.
O gol mais zagueiro que fiz em minha vida.
Sem medo da sola do goleiro.
Da trave.
Ou do chão.



ELETROGE F C 6 X 0 ÁGUA VERDE/JARDIM IDEAL

Gols: (1) André, (1) Alan, (1) Nardo, (1) contra, (1) Ronaldo, (1) Maurão



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

MAGRÃO DA 10

Charge de Ziraldo, sobre a vitória brasileira na Copa do Mundo no México em 1970.
08 de novembro de 2015

Foi um voo solitário. Solitário e desolado.
Assim descrevo o salto do goleiro. Que tristemente, teve que ouvir o som metálico da trave ser amortecido pelo da rede.
Uma.
Duas.
Três vezes. Foram os quiques da bola que forçosamente entrou rente ao ângulo esquerdo do jovem guapo.
Um tiro seco.
Que tem um autor tão peculiar quanto o chute.
Do tipo que engana.
Daqueles que você não espera nada.
Alto, de movimentos lentos. Parece lento.
Sempre dá a entender que nunca chegará à bola.
Mas chega.
Parece fraco, pois é magro. Magro até demais para um esporte de tanto contato físico.
Mas que vã ilusão.
Lembro-me como se tivesse ocorrido hoje, a primeira vez que o vi jogar.
Estava eu no melhor lugar do campo.
Dentro dele.
Fazia a linha de defesa.
Foi surpreendente.
Espantado, dizia a um colega: Parece o Danilo. Esconde a bola.
E como esconde.
Um ranzinza da meia.
Que ostenta a dez. a camisa dez.
Como segunda pele.
Com autoridade.
Um ranzinza criativo, com lampejos de genialidade.
Como é difícil jogar com ranzinzas.
Como é prazeroso tê-los em campo.
Em minha equipe. É claro.
Neste final de semana esnobou.
Como falso centroavante fez gol de todo tipo.
Apanhou.
Irritou a defesa adversária.
E ainda arrumou tempo para provocar.
E para não perder o hábito.
Provocou.
Há jogadores que enganam.


ELETROGE F C 7 X 2  5º BATALHÃO

gols: (3) Guilherme; (2) Wesley; (1) Anderson; (1) contra


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O GLORIOSO



05 de outubro de 2014

Jogadores de futebol tem suas histórias, muitas delas mascaradas e reorganizadas pelo polimento da memória. As partidas memoráveis são sempre limpas, irretocáveis.
Muitas vezes, quando começo a tecer essas linhas, questiono-me sobre essa higienização.
Deste lembrar sem traumas.
Pergunto-me como seria narrar o grosso, o bruto do fato.
Ao descrever um gol, dizer que a jogada nasceu de um erro de cálculo. Uma antecipação mal feita.
Descrever cada xingamento em campo. Os ditos. Gritados. E os nãos ditos.
O futebol é jogado. E o bem jogar futebol reflete em gols.
Onde ficam os gols perdidos?
A triangulação perfeita.
A passagem pela lateral sem o passe.
Os chutes errados.
Quantos.
Definitivamente não.
Não.
Não tenho essa capacidade. São muitos os detalhes, e sinto-me incapaz de tal empreitada.
Tudo ocorre muito rápido.Tão rápido que os gols são flashes em minha memória.
O escritor francês Victor Hugo (1802-1885) em seu belíssimo Nossa Senhora de Paris (O Corcunda de Notre Dame) ao se referir à arquitetura, dizia que a mesma conta a história. Conta o tempo em seu corpo.
Em suas marcas.
Assim é o campo de futebol.
Assim é o Glorioso.
O nosso Glorioso.
O Gigante dos Predinhos.
As histórias de nossas partidas há um ano estão gravadas em seu gramado.
As batalhas nas entradas de áreas.
Os voleios.
Os chutes.
Cabeçadas.
Em nossos corpos ficam suas marcas.
Arranhões da terra dura.
Da grama grossa.
É a história contada com os corpos.
O dele e o nosso.
Do nosso e dos outros.
De tantos outros.
Hoje, o Gigante estava lindo.
Gramado aparado em uma bela manhã de sol.
Bela como a partida jogada.
Extremamente técnica e viril.
Brigamos.
Xingamos.
Suamos.
Ganhamos.
No final.
O silêncio.
Até o domingo que vem.



ELETROGE F C 4 X 3 ALFA EMBALAGENS